Ttulo: O Sol Nunca Mais Vai brilhar.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Editora Edibolso, So Paulo.
Ttulo Original: Imperial Splendour.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
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EDITORA EDIBOLSO - GRUPO ABRIL Caixa Postal 2372 - So Paulo

NOTA DA AUTORA
Muitos dos castelos que Zia e Blake viram ser incendiados e saqueados,
durante sua fuga de Moscou, esto hoje exatamente como no tempo em que
foram construdos por Catarina, a Grande. Visitei-os, na viagem que fiz 
Rssia, em 1978; na poca, estive tambm em So Petersburgo, hoje
Leningrado (que merece a fama de ser a "mais bonita cidade do mundo"), e
em Odessa, onde viveu realmente o duque de Richelieu, governador-geral da
Nova Rssia.
Alm dele, vrios outros personagens e situaes desta histria so
reais. Como o czar Alexandre, a czarina e,  claro, Napoleo Bonaparte. A
tomada de Moscou aconteceu exatamente como est descrita, mas foi uma
vitria curta. O czar recusou-se a assinar o armistcio e, depois de
cinco semanas, Napoleo no teve escolha, seno se retirar com seu
exrcito e iniciar o longo caminho de volta para a Frana.
Mas partiu tarde demais. A 4 de novembro, a neve comeou a cair e, dois
dias depois, a temperatura era de muitos graus abaixo de zero. A
selvageria dos camponeses russos e a falta de comida e agasalhos
derrotaram os invasores. As estradas ficaram cobertas de franceses
mortos. Cerca de meio milho de soldados da Grande Armada de Napoleo
jamais chegaram  Frana.
Em abril de 1814, Napoleo abdicou e foi exilado na ilha de Elba. Quando
Alexandre entrou em Paris, as multides deliraram e o seu prprio pas
implorou para que ele aceitasse o ttulo de "Alexandre, o Abenoado". O
czar foi o primeiro, no Congresso de Viena, a ter a ideia de uma Liga das
Naes.
Os russos reconstruram Moscou e quando visitei Lningrado, em 1978, pude
ver o brilhantismo com que refizeram aquela cidade devastada pelos
alemes, em 1941.
Os palcios que haviam sido saqueados e bombardeados, agora esto
requintados e esplndidos, exatamente como quando foram construdos por
ordem de Catarina, a Grande.
Todo o perodo Romntico do bale comeou com a pea Ls Sylphides, a qual
foi apresentada em Paris no ms de maro de 1832, em Londres no ms de
julho e em So Petersburgo no ms de setembro.
O traje atribudo a "Lami", com sua saia longa em forma de sino, tornou-
se a vestimenta tradicional das bailarinas daquele perodo e  usado at
os dias de hoje. Por ser um traje to conhecido, e porque desejo que meus
leitores tenham uma clara imagem de Zia, nesta histria antecipei a
apresentao de Ls Sylphides, em So Petersburgo, por vinte anos.
Este livro  dedicado ao lorde Mountbatten, conde de Burma, tio da rainha
Elizabeth II. Ele foi o primeiro a recomendar minha viagem  Rssia, para
que eu pudesse recolher material para este romance. Muitos dos detalhes
verdicos foram conseguidos com a sua ajuda.

CAPTULO I
1812

 O duque de Welminster atravessou a sala para afastar as cortinas! "
janela e ver o rio Neva l fora,
A plida luminosidade produzia reflexos na gua e refletia na torre
da Catedral de So Pedro e So Paulo, a distncia, e os baluartes e muros
da fortaleza construda por Pedro, o Grande.
Porm, no momento, ele no via a beleza de So Petersburgo, que o
surpreendera com a perfeio de sua arquitetura; estava preocupado com o
exrcito russo, que esperava a deciso de seu comandante, quanto 
direo na qual os franceses estariam avanando.
Seus pensamentos foram interrompidos por um suave lamento:
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Voc se esqueceu de mim? - perguntou uma voz de mulher. Ainda estou aqui,
esperando.
No havia como ignorar o convite e o tom sedutor das palavras que, ditas
em ingls, com um forte sotaque rusao, soavam apaixonadas.
O duque voltou-se, com um sorriso nos lbios.
No havia dvida de que a princesa Katharina Bagration era muito
atraente; de fato, uma das mulheres mais bonitas que j havia visto.
Recostada nos travesseiros debruados de renda, com o cabelo caindo sobre
os ombros e os grandes olhos lnguidos, ela aparentava ser bem mais jovem
do que realmente era.
Havia nela um ar de mistrio oriental, um charme andaluz, e uma
elegncia parisiense. No era de admirar, pensou o duque, que o czar
Alexandre I a escolhesse para espion-lo - fato do qual ele tinha
conhecimento, desde o momento em que ela chegou a So Petersburgo.
O duque era muito experiente na arte da intriga e j realizara com muito
sucesso vrias misses diplomticas extra-oficiais. No se surpreendeu,
quando o primeiro-ministro, lordeTiverpool, o procurou.
- Preciso de sua ajuda, Welminster. Acho que voc pode adivinhar para
onde desejo que v.
- Para a Rssia?
- Exatamente!
Lorde Castlereagh, secretrio de Assuntos Estrangeiros, que estava na
sala, interrompeu:
- Pelo amor de Deus, Welminster, descubra o que est acontecendo. Os
relatrios que recebo so to contraditrios que no posso saber onde
estou pisando com relao aquele enigmtico pas.
A irritao era evidente na voz do secretrio, e o duque podia entender
sua frustrao.
O czar Alexandre deixara no somente os britnicos confusos, mas a
maioria da Europa, por seu comportamento nos ltimos anos, em relao aos
surpreendentes sucessos militares de Napoleo Bonaparte.
Tido como uma figura obscura, no incio de seu reinado, Alexandre no
conseguia decidir se se juntava numa aliana contra a Frana de Bonaparte
ou se continuava a poltica de amizade de seu pai.
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Napoleo havia sugerido ao czar Paulo, pai de Alexandre, que a Frana e a
Rssia deveriam dividir o mundo, mas quando Bonaparte desprezou os termos
desse tratado e atacou os aliados, os russos passaram a consider-lo um
dos mais infames tiranos de toda a histria.
Depois do desastre de Austerlitz, quando o czar Alexandre, com vinte e
oito anos de idade, foi completamente derrotado, seu herosmo e valentia
o abandonaram.
Ele galopou sozinho do campo de batalha, desmontou, e sob uma macieira,
chorou convulsivamente.
Outra derrota desastrosa aconteceu, em Friedland, e foi ento que, para a
surpresa do povo, Alexandre assinou um tratado de amizade com os
franceses, no qual prometia participar de um bloqueio comercial contra a
Inglaterra.
Isso fez com que se tornasse extremamente impopular entre o povo russo,
que, desde o tempo das vitrias de Catarina, a Grande, no sofria tantas
derrotas vergonhosas.
No ano anterior, 1811, Alexandre deu ateno a seus sditos e se recusou
a mandar soldados para lutar pela Frana e a fechar os portos russos a
pases neutros e  Inglaterra.
- No posso deixar de pensar - disse um famoso general britnico para o
duque, em Londres - que, se chegar um momento decisivo, a Rssia ser um
fraco adversrio para a armada de Napoleo.
O duque sentiu-se inclinado a concordar com ele, mas agora que estava
realmente na Rssia, comeava a ter suas dvidas. Na verdade, quando, no
dia anterior, o czar mostrou-lhe uma carta do conde Rostopchin,
governador de Moscou, ele achou seus argumentos muito convincentes,
O governador escreveu:
"Seu Imprio, senhor, tem duas poderosas defesas - o grande espao e o
clima. Czar de todas as Rssias ser formidvel em Moscou, terrvel em
Karzan e invencvel em Tobolsk".
- Pare de pensar em guerra, Blake - a princesa Katharina dizia agora,
insistente. - Posso imaginar coisa muito mais interessante em
que conversar.
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O duque, de p ao lado da cama, sabia do que se tratava, mas, em vez de
se render ao convite, respondeu:
Acho que est na hora de voltar para seu quarto.
- No tenho pressa.
- Estou pensando na sua reputao. A princesa riu.
- Voc  o primeiro homem que conheo que  to atencioso. Ou ser talvez
a minha companhia que o aborrece?
No havia dvida de que ela achava isso impossvel e o duque, com um
toque de cinismo na voz, disse:
- Como eu poderia ser to descorts?
- Voc  muito bonito, meu querido, e isso muitas mulheres j lhe
disseram. Adoro homens bonitos, e nenhum outro poderia ser um amante mais
atraente.
Ela comeou ento a falar em francs, como se fosse mais fcil expressar-
se naquela lngua para falar de amor.
Francs era a lngua da nobreza em So Petersburgo e a cultura francesa,
um smbolo de alta posio. Algum dissera ao duque, na sua chegada:
- S  aceitvel, para um jantar, o que for feito por um cozinheiro
francs; nenhum vestido  elegante, se no for parisiense; e mesmo assim
no h ningum em toda a cidade que no blasfeme contra Bonaparte.
- Voc  maravilhosa, Katharina! - disse o duque, agora em francs- - Mas
ainda acho que deve voltar para o seu quarto.
A princesa fez um pequeno gesto de desdm e, inclinando-se para a frente,
o que revelou as curvas de seus seios nus, ps as mos sobre as do duque.
- Voc  muito srio. Vamos ficar alegres e nos divertir. Afinal, o que 
a Rssia para voc?
- Um aliado, ainda que um pouco vacilante. Katharina riu:
- Diga-me o que quer saber sobre seu "aliado" e lhe darei as respostas
certas.
" 13
- Tenho certeza disso. S gostaria de saber quanto me custaria essa
informao.
Katharina riu novamente. Sabia que o duque no ignorava o motivo pelo
qual ela o procurara; por que havia flertado insistentemente com ele,
desde que chegara ao Palcio de Inverno; e por que, na noite anterior,
depois que ele se retirara para o quarto, uma parede secreta se abriu e
ela apareceu inesperadamente.
Na verdade, ele esperava que ela viesse, embora no estivesse preparado
para aquela entrada triunfal. Ainda em Londres, lorde Castlereagh lhe
tinha dito que o czar empregava as mulheres mais adorveis de So
Petersburgo para espionar o embaixador ou qualquer outro emissrio que os
ingleses enviassem para a Rssia.
Na ocasio, o amigo comentou, malicioso:
- No que isso seja novidade para voc, Welminster.
- Admito que isso j tenha acontecido, no passado. E tendo ouvido falar
sobre a beleza das mulheres, na corte de So Petersburgo, estou bastante
ansioso para comear essa misso.
- Cuidado!
- com o qu? Para no passar adiante os segredos de Estado, a maioria dos
quais acho que os russos j conhecem, ou para no me
apaixonar -  disse.
- Esta ltima possibilidade nunca me passou pela cabea - disse lorde
Castlereagh.
O duque esperava encontrar uma mulher encantadora, mas teve que
cumprimentar o czar pela escolha da princesa. Katharina Bagration era
descendente de poloneses e mongis, e havia se casado aos vinte anos com
um general muitos anos mais velho. Por ter sangue real, havia sido
admitida nas altas rodas da corte russa. O fato de ser de descendncia
mongol dava-lhe aquele ar de mistrio oriental, que a fazia nica, mesmo
entre as mais lindas mulheres.
Foi o czar quem ordenou ao seu ministro das Relaes Exteriores que a
usasse como espi, misso que a bela e inteligente Katharina j havia
cumprido uma vez antes, com total sucesso.
Tinha sido enviada para seduzir o conde Metternich, delegado austraco
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em Dresden, que os diplomatas russos em Viena achavam ser muito
importante, apesar de jovem, por sua ntima amizade com o imperador da
ustria.
A princesa Katharina, jovem e adorvel, dirigiu-se  delegacia em
Dresden, como mensageira imperial, e desde o minuto em que a viu, parada
na porta do hall, Metternich ficou fascinado.
Ela usava um vestido de musseline, muito fino e quase transparente, muito
em moda; contra a luz do sol, seu corpo se desenhava como uma linda
esttua de mrmore.
Mais tarde, o conde austraco confidenciou a um amigo, que repetiu para
Welminster:
- Ela parecia um lindo anjo nu.
Naquele momento, o jovem delegado e a agente secreta russa apaixonaram-
se.
Havia sido um caso ardente e impetuoso, do qual toda Dresden falara,
principalmente porque, trs meses depois, Katharina ficara grvida.
A notcia foi espalhada, comentada, discutida, e imediatamente o czar
mandou uma ordem urgente para que ela voltasse. Precisava, a todo custo,
resguardar a reputao de sua linda agente.
Assim, o general Bagration, marido de Katharina, anunciou que seu
casamento seria brevemente abenoado por uma criana. Depois do
nascimento de uma menina, ele formalmente assumiu a paternidade. O czar
registrou o nascimento na corte de So Petersburgo, mas o beb foi, na
verdade, entregue  paciente e muito compreensiva esposa do conde.
Abafado o escndalo, o romance continuou e agora, dez anos depois,
Metternich era o mais importante diplomata da Europa. Esse sucesso de
Katharina fez com que o czar a escolhesse para seduzir duque de
Welminster, o que no era uma misso fcil.
O servio secreto russo sabia que, alm de ser o mais "caado" solteiro
da Inglaterra, tinha tambm um gosto muito exigente. Beleza apenas no o
satisfazia. Para agrad-lo, uma mulher precisava ser hbil e sofisticada
na cama. Mais do que um corpo irresistvel, Katharina era exmia na arte
de fazer amor.
Quando conquistou o corao do conde Metternich, era muito jovem
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e talvez ele tivesse sido seu primeiro amante, aps o casamento. Mas
agora, o duque pensava, ela havia desabrochado em uma mulher brilhante,
como uma perfeita pedra preciosa, que provocava admirao tanto quanto
desejo.
Agora, enquanto a olhava, Katharina recostou-se nos travesseiros e puxou
o lenol para cobrir sua nudez.
Havia alguma coisa de inocente e modesto no gesto sedutor, apesar de ele
saber que tinha sido ensaiado e, talvez, muitas vezes repetido, como os
passos de uma bailarina. O duque apreciava o tom artstico daquela
encenao.
- No que  que voc pensa, Katharina, quando no est "trabalhando"?
Por um momento, ela o olhou, incerta. Depois, no escondeu que entendia a
insinuao por detrs de suas palavras.
- Agora, estou pensando em voc.
O duque olhou para o elaborado relgio de ouro e diamantes sobre a
lareira. Era um dos muitos relgios maravilhosos que decoravam os
apartamentos do Palcio de Inverno, que se estendiam por mais de um
quilmetro, em trs andares, e que tinham feito parte da coleo de
Pedro, o Grande.
- So cinco horas - disse ele. - Prometi tomar o caf da manh com o
czar, s nove. At l, espero dormir, Katharina.
Havia um tom em sua voz que mostrava ser intil argumentar com ele. Ela
apenas sorriu e, saindo da cama, dirigiu-se a uma cadeira para apanhar o
belo neglig de renda e cetim. Seu corpo ainda era de um anjo, como
Klements Metternich a descrevera.
Envolta no neglig, ela calou os chinelos bordados de prolas.
- Durma bem, meu adorvel ingls! Contarei as horas, at que possa beij-
lo novamente.
Depois dirigiu-lhe um sorriso maroto, atravessou o quarto, e tocou o
falso painel, que se abriu. Sem olhar para trs, Katharina desapareceu na
passagem secreta.
O duque permaneceu sentado por um momento. Depois, deitou-se e fechou os
olhos, mas o sono no vinha. Sua mente ainda estava a ti v:
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no pensava em Katharina e em sua paixo, mas na Rssia e na Grande
Armada francesa, com uma fora de seiscentos mil homens.
Welminster acreditava que um tero dos soldados era alemo, recrutado 
fora em territrios conquistados. A primeira coisa que soube, ao chegar
a So Petersburgo, foi que Alexandre mostrara surpresa, quando descobrira
que Napoleo se dirigia para a antiga e sagrada capital da Rssia. Nunca
imaginara que o Imperador tentaria realmente entrar em Moscou, e o
pensamento da inevitvel carnificina o aterrorizava.
Felizmente, para os russos, pensou o duque, o czar no comandaria seus
exrcitos. Sua reputao como lder militar era to desastrosa que a
prpria irm lhe escrevera uma carta franca e desesperada:
"Pelo amor de Deus, no assuma o comando. No h tempo a perder.
Precisamos dar ao exrcito um comandante em quem os homens possam
confiar, e voc no lhes inspira nenhuma confiana".
Estranhamente, Alexandre atendeu ao pedido. Viajou de volta a Moscou e
depois para So Petersburgo. Por toda parte, ouviu crticas ao alto
comando e elogios a Kutuzov, cujo nome era quase mgico para o povo.
Alexandre no acreditava no general Kutuzov. Achava-o conservador demais,
ultrapassado. Mas decidiu acatar a vontade popular e disse ao duque, na
sua chegada:
- O pblico o quer! Eu o indiquei! Quanto a mim, lavo as mos com
respeito a isso tudo.
Welminster compreendeu que ele se sentia humilhado por ter sido mais ou
menos deposto em favor de um general de setenta anos de idade,
preguioso, libertino, e que no entendia nada das modernas tticas de
guerra.
Entretanto, outras pessoas no palcio informaram que Kutuzov, apesar de
todos os defeitos, tinha um bom senso adquirido em longos anos de
experincia.
- Ele  lento, mas tenaz - disse um estadista mais velho. - Preguioso,
mas tem discernimento;  impassvel e astuto!
O duque enviou para Londres essas informaes em cdigo, por um
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mensageiro especial. Esperava que o primeiro-ministro e o secretrio de
Assuntos Estrangeiros deduzissem alguma coisa disso.
Na Rssia, o inesperado sempre acontece. Pelo menos, a vida aqui nunca
ser montona, pensou.
Compreendeu que estava se divertindo,  sua maneira. com esse pensamento
na mente, adormeceu.
s nove horas, o duque foi admitido nos aposentos particulares do czar.
Para chegar l, atravessou o que parecia quilmetros de salas, as mais
ricamente decoradas que jamais vira. Tinha sido preparado para toda essa
magnificncia: as histrias sobre os tesouros de So Petersburgo e o
esplendor de seus prdios eram muito comentadas em Londres.
Foi a extravagante imperatriz Elizabeth quem mandou demolir o Palcio de
Inverno original, de madeira, construdo por Pedro, o Grande. Em oito
anos, seu arquiteto Rostrelli, cobriu uma rea de quase um milho de
metros quadrados com mil e cinquenta salas e cento e dezessete
escadarias.
Quando a imperatriz Catarina subiu ao trono, mandou projetar o Palcio de
Vero, que excederia em beleza o de Versailles; e, em So Petersburgo,
anexou trs prdios ao Palcio de Inverno, conhecidos como O Refgio.
Entre as construes havia ptios aquecidos, onde pssaros raros voavam
entre as rvores e arbustos.
A imperatriz instruiu seus embaixadores em Paris, Roma e Londres para
estarem atentos aos leiles de arte e eles adquiriram excelentes quadros
assinados por grandes mestres como Rembrandt, Tiepolo, Van Dyke e
Poussin.
O duque olhou superficialmente para aquelas magnficas obras, porque sua
mente ainda se ocupava com o avano de Bonaparte na Rssia.
- Seria uma tragdia, se tesouros como os que vi fossem perdidos
- murmurou.
Ao chegar aos aposentos do czar, foi saudado por sentinelas da Guarda de
Ouro. Escolhidos por sua altura, eram figuras impressionantes. Usavam
calas brancas e perneiras, uma tnica preta com gola e punhos
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dourados e jaqueta vermelha com cauda, debruada de ouro, sobre a qual
havia um cinturo com o smbolo de uma guia de duas cabeas.
O duque encontrou o czar esperando-o. Era alto, cabelo claro, e muito
atraente. Fcil entender por que o povo russo tinha visto Alexandre subir
ao trono em 1801 como um rei de contos de fadas, vindo para salv-lo de
todas as suas misrias.
Mas, aos vinte e quatro anos de idade, quando foi coroado, era tambm um
homem odiado. Durante a cerimnia, algum comentou e a frase ficou famosa
na corte:
- Ele foi precedido por homens que assassinaram seu av, escoltado por
homens que mataram seu pai e seguido por homens que no hesitariam duas
vezes em assassin-lo!
O duque ouvira de um dos amigos mais chegados do czar que, quando
Alexandre soube da morte cruel do pai, irrompeu em lgrimas.
- No tenho foras para reinar - disse ele para a esposa, soluando. -
Que outra pessoa tome meu lugar!
O duque comeou a imaginar que a imagem do pai estrangulado perseguia o
czar.
Era bastante perspicaz para entender que os russos podiam sofrer em
silncio de uma maneira que homens de outras naes seriam incapazes de
suportar. Conhecia pessoalmente o czar h alguns anos e sabia que era
constantemente acometido de profundas depresses que, com a idade,
pioravam.
Como era de se esperar, aquela manh Alexandre parecia preocupado e
falava de um jeito quase histrico.
- As notcias so ms, muito ms! - disse, aps cumprimentar o duque.
- O que Vossa Alteza soube?
- Que Bonaparte continua avanando em direo a Moscou!
O czar falou como se mal pudesse suportar as palavras e suspirou.
- S Deus sabe se isso  verdade. Para ser honesto, ningum parece saber
o que est acontecendo.
O duque no se surpreendeu. Os meios de comunicao entre o exrcito
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e o palcio eram casuais e inadequados, como eram muitas outras
coisas na Rssia.
Sentaram-se para o desjejum, no qual, como de costume, havia trs tipos
de po. Seu preferido era um pozinho branco chamado kalatch, leve como
uma pluma, para ser comido quente, feito com gua trazida especialmente do
rio Moskva. Esta gua era entregue em todos os palcios de So
Petersburgo, um costume que datava do sculo anterior. Enquanto comiam, o
czar, em vez de falar sobre o que estava acontecendo com as tropas sob o
comando de Kutuzov, apenas citava passagens da bblia.
Quando o duque olhou-o, surpreso, ele explicou:
- Ontem, soube que meu grande amigo, o prncipe Alexandre Golitzin,  um
traidor.
- Isso  impossvel! - exclamou o duque, que conhecia o prncipe.
- Tambm no quis acreditar, mas o informante revelou que ele est
construindo um impressionante palcio novo, onde pretende receber
Napoleo.
- Certamente, Vossa Alteza no acredita em tal histria?
- Fui uma vez visitar Golitzin e perguntei-lhe claramente por que tinha
decidido construir um palcio em tempos to conturbados.
- E qual foi a resposta?
- O prncipe respondeu: "Vossa Imperial Majestade no precisa temer uma
invaso, se confia na Divina Providncia".
O duque ergueu as sobrancelhas, mas no fez nenhum comentrio, e o czar
continuou:
- Golitzin tirou ento um grande volume da bblia de uma prateleira. O
livro escorregou e caiu aberto no cho na pgina do Salmo 41.
O czar fez uma pausa e o duque disse:
- Receio, senhor, ter esquecido este Salmo.
- "Eu direi ao Senhor: Ele  meu refgio e fortaleza: meu Deus; Nele eu
confiarei" - citou o czar.
Sua voz soou grave e impressionante, quando acrescentou:
- Golitzin convenceu-me de que o fato de a bblia ter cado aberta
naquela pgina no foi uma coincidncia, mas uma mensagem de Deus.
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Espero que o prncipe esteja certo - disse o duque, secamente.
Tenho certeza disso! Tenho lido a bblia todas as noites, pensado em Deus
e na nossa situao. Acredito que seremos salvos.
Welminster no pde deixar de pensar que os russos certamente precisariam
da ajuda do Todo-Poderoso, pois no podiam contar inteiramente com seu
exrcito. Antes de deixar a Inglaterra, lera uma declarao de um certo
dr. Clarke, um ingls que visitara a fbrica de armamentos de Tuia, dois
anos antes, e que ficou espantado com a incompetncia que l encontrara.
Seu relatrio dizia:
"A maquinaria  mal construda e mal conservada. Tudo parece fora de
lugar. Operrios com longas barbas se entreolham, querendo saber o que
dever ser feito em seguida, enquanto seus administradores ou diretores
esto bbados ou dormindo. A despeito disso, eles pretendem produzir mil
e trezentos mosquetes por semana".
- E como esto as coisas agora? - perguntara o duque ao dr. Clarke.
- No tenho ideia - foi a resposta -, mas soubemos que os mosquetes
russos, alm de serem demasiado pesados, perdem cinco tiros em cada dez e
esto sujeitos a explodir quando disparados.
O duque pensou que espies franceses deviam ter fornecido o mesmo tipo de
informao a Napoleo. Ele, sem dvida, estava confiante em que a
resistncia que encontraria, ao invadir a Rssia, no seria muito
eficiente contra suas foras, que eram altamente organizadas e armadas
com o mais moderno equipamento. Entretanto, no seria necessrio repetir
isso ao czar. Assim sendo, o duque fez o melhor que pde para falar de
outras coisas, sabendo que no teria nada a ganhar aumentando o desespero
de Alexandre.
A convivncia com a famlia real e outros nobres no Palcio de Inverno
mostrou que todos estavam to apreensivos quanto ele. Na verdade, achou a
atmosfera to deprimente que decidiu procurar a princesa Ysevolsov, que
conhecia h muito tempo.
Quando chegou ao palcio, encontrou uma carta dela, implorando-lhe para,
na primeira oportunidade, renovar sua amizade:
"Meu pobre marido, naturalmente, est no campo de batalha, mas eu
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o receberei de braos abertos, como um de meus mais chegados e queridos
amigos da Inglaterra. Tambm quero que conhea minha pequena Tnia. Ela
tinha apenas dez ou onze anos, na ltima vez em que a viu. Agora, est
muito bonita. Quando esta cansativa guerra terminar, quero apresent-la
aos nossos amigos em Londres e  rainha, no Palcio de Buckingham".
O duque leu a carta e encontrou muita informao nas entrelinhas. Sabia
que o prncipe Ysevolsov era um dos homens mais ricos da Rssia. Sua
famlia, assim como outros membros da nobreza, no somente possuam
enormes propriedades, mas tambm um grande nmero de escravos.
Acreditava-se que o prncipe Ysevolsov tinha mais de vinte e cinco mil
servos em vrias provncias do pas. Ele os usava no somente como
ourives, carpinteiros e entalhadores, mas tambm para sua Companhia
Teatral e Corpo de Baile. Possua seu prprio teatro, onde representava
para os amigos.
A esposa do prncipe era to linda e preciosa quanto suas outras
propriedades. Tinha, entretanto, sangue austraco e ingls, e sempre
dissera ao duque que esperava que seus filhos nunca se casassem com
russos.
Agora ele compreendia por que ela insistia para que conhecesse sua filha
Tnia. Seria, na verdade, um negcio muito conveniente para a filha de um
dos mais ricos e importantes nobres da Rssia casar-se com um dos mais
ricos e importantes nobres da Inglaterra.
Porm, o duque disse a si mesmo que a princesa ficaria desapontada. Ele
tinha agora trinta e trs anos e ainda evitava o casamento. Apesar de, s
vezes, ter chegado perigosamente perto de percorrer a nave da igreja, no
ltimo momento conseguia escapar desta difcil situao.
Nos ltimos anos, assegurou-se de que o perigo no ocorreria novamente,
tendo pouca ou nenhuma ligao com jovens. Seus casos de amor eram sempre
com mulheres casadas ou vivas e deixava claro, desde o incio, que
preferia manter sua liberdade de homem solteiro.
- Voc ter que se casar um dia, para ter um filho.
Era uma frase que lhe era dita e repetida at que se convenceu de que, se
dependesse dele, o ducado poderia passar a seu irmo mais moo sem que
isso lhe causasse qualquer ressentimento.
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Quanto mais via as mulheres que fizeram de Londres, agora sob o soberano
do prncipe de Gales, uma das cidades mais alegres e promscuas do mundo,
mais se convencia de que casos de amor eram uma coisa, mas casamento era
certamente outra.
No tinha nenhuma inteno de desposar uma mulher que lhe seria infiel e
no gostava da ideia de enganar sua esposa, mentindo para proteger-se.
Era muito orgulhoso e ntegro para se humilhar com falsidades ou
trapaas.
- Nunca me casarei - disse o duque, no s uma, mas milhares de vezes.
Achava agora que seria uma pena, se no pudesse mais se entregar a to
agradveis amores secretos, como o que tinha acontecido na noite
anterior, sem experimentar um sentimento de culpa na manh seguinte.
Naquele momento, imaginava, divertido, que o czar ou algum do Ministrio
das Relaes Exteriores estaria, sem dvida, perguntando a Katharina o
que ela descobrira.
Apesar de estar certo de que, com sua mente gil, ela lhes daria alguma
coisa em que pensar, sabia que no lhe dissera nada que no pudesse ser
publicado em qualquer jornal russo.
Vira Katharina  distncia, na hora do almoo, sedutora, num vestido
parisiense, e usando jias maravilhosas, que com certeza no lhe tinham
sido dadas por seu idoso e felizmente ausente marido.
Seus olhos se cruzaram por um momento, na sala de recepo, para onde os
convidados se dirigiram quando a refeio terminou. Sem palavras, ela
disse ao duque que o desejava e ele precisava apenas mover um dedo para
que ela estivesse a seu lado. Mas decidiu que, antes de se ocupar
novamente com seu ardente caso de amor, devia aprofundar seu conhecimento
de So Petersburgo e, talvez, descobrir fora do palcio o que as outras
pessoas pensavam. Por isso, descia agora a magnfica escada de mrmore,
com suas colunas brancas e douradas, e se dirigia para a porta.
Ali, chamou uma das drotskis que estavam sempre  disposio dos
convidados do czar. Dando a direo do palcio Ysevolsov, partiu.
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Mesmo para agosto fazia muito calor e havia uma suave brisa vinda do rio,
apesar de se sentir um pouco de sal no ar.
As amplas estradas, construdas por Pedro, o Grande, no tinham
praticamente nenhum trfego quela hora do dia, quando a maioria das
pessoas preferia ficar em casa. De qualquer maneira, devido s ms
notcias sobre o avano de Napoleo, havia menos movimento na cidade do
que o usual.
Durante o trajeto, o duque apreciava os magnficos palcios e outros
prdios, que, com suas cores brilhantes, eram diferentes das construes
cinzentas da Inglaterra. O palcio Roumainzov, de cor laranja; o
Ministrio da Justia, azul; e o enorme Quartel Pavlovski, destinado ao
czar Paulo, amarelo. A casa da Guarda chamou sua ateno em particular:
era pintada de verde e tinha um prtico de oito colunas dricas de
granito branco.
Sua drotski, puxada por dois excelentes cavalos, alcanou o palcio
Ysevolsov rapidamente. Ao entrar no lindssimo bali, foi recebido por um
lacaio que o conduziu pelas escadas de mrmore que se dividiam num
patamar ornamentado por finas peas de porcelana chinesa. Atravessavam a
sala de recepo, enquanto o criado explicava, num vacilante francs:
- Madame la princesse est no teatro, monsieur.
O duque fez que entendeu e continuaram andando atravs de vrias salas
lindamente decoradas, at que, no centro de uma delas, chegaram a uma
escada, feita de valiosssima malaquita, que descia ao pavimento
inferior.
Welminster soube na Inglaterra que o teatro particular do prncipe
Ysevolsov era excepcional, mas no estava preparado para a beleza que
viu, quando o criado abriu a porta incrustada de ouro e ele entrou no que
era obviamente o camarote real.
Muito pequeno, na verdade com capacidade para menos de cem pessoas,
parecia a casa de bonecas de uma criana em uma manso real, mas possua
todo o charme e a beleza de um teatro imperial. No balco havia cadeiras
entalhadas, douradas e brancas, e a plateia tinha poltronas forradas de
veludo vermelho, como as do camarote no qual entrara.
24
O lacaio no anunciou sua chegada e ele ficou em p, ao fundo, olhando
para a princesa, que seguia atentamente o que se passava no palco.
Uma garota danava ao som de uma pequena orquestra. O duque olhou
rapidamente para a artista e concluiu que, com a obsesso do prncipe
pelo teatro, ela deveria ser um membro do Corpo de Baile Especial ou, o
que era mais provvel, algum de sua famlia.
Se havia uma coisa que realmente detestava era teatro amador. Esperava
que o espetculo no levasse muito tempo, pois precisava falar com a
princesa.
A danarina fez ento uma reverncia, terminando sua apresentao.
- Graas a Deus!
Estava a ponto de se adiantar para falar com sua anfitri, quando a
msica mudou e uma outra garota entrou no palco. Movia-se na ponta dos
ps e vestia uma roupa longa de bale, que lhe chegava ao tornozelo, com
corpete justo e decotado que deixava  mostra seu longo pescoo e os
braos nus.
O duque fez um gesto de impacincia: teria que assistir a mais aquela
maldita apresentao! Percebeu, ento, que os movimentos da bailarina no
palco eram excepcionalmente graciosos. Apesar de sua irritao, deuse
conta de que a observava atentamente. Como grande conhecedor do assunto,
e tambm muito exigente, estava certo de que assistia a um excelente
trabalho. Observando a garota mover-se pelo palco e danar com uma
espontaneidade e alegria que nunca vira antes, soube que ela tambm era
especial: original em seus movimentos, em sua graa, em sua dana,
A Rssia  cheia de surpresas, pensou.
Quando jovem, ficava profundamente comovido com a msica e a poesia, at
que, j adulto, percebeu que, ao apreciar as sutilezas de tais coisas,
no mais se emocionava como na juventude. Agora, inexplicavelmente,
sentia sua mente voando ao sabor da msica, enquanto seus olhos seguiam
cada movimento delicado da bailarina. Parecia mover-se entre arvores
floridas, e o mundo inteiro acordava para a primavera. Havia nela alguma
coisa jovem e criativa, e o duque pensou ver borboletas pairando no ar e
pssaros no cu.
25
Foi quase com uma sensao de perda que percebeu que a dana terminara e
a bailarina agradecia. Caram as cortinas de veludo vermelho, para em
seguida serem erguidas novamente. As duas moas, de mos dadas, fizeram
ento a reverncia final. A princesa aplaudia com grande entusiasmo:
- Excelente! - ela gritou. - Ambas estiveram muito bem. Agora vo se
trocar e venham ao Salo Branco.
As jovens se retiraram e s ento a princesa se deu conta da presena do
duque. com um gritinho de surpresa, levantou-se, estendendo as mos;
- Blake! Voc veio! Estou to contente em v-lo!
- E eu em v-la, Sonya. Quem so aquelas encantadoras criaturas? Elas me
fascinaram.
- A primeira a danar foi Tnia, minha pequena Tnia, que tanto quero que
voc conhea. Voc a ver em poucos minutos e sei que acreditar em tudo
o que eu contei sobre ela - disse, pegando o brao dele e o conduzindo
para fora do camarote.
Ao subir as escadas de malaquita, o duque perguntou:
- E a outra bailarina?
Houve uma longa pausa, e a princesa respondeu:
- Ah, aquela era Zia!
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CAPITULO II

O duque ia perguntar o sobrenome de Zia, mas a princesa continuou:
- Voc deve estar sentindo muito calor, assim como eu. Ns nunca estamos
em So Petersburgo, nesta poca do ano, mas se o czar permanece no
Palcio de Inverno, como podemos ir para o campo? Seria como desertar.
Caminhavam pelas belas salas pelas quais ele passara no trajeto para o
teatro e entraram num enorme salo, todo branco. Havia uma enorme lareira
de pedra entalhada e cortinas de seda chinesa. Um reluzente servio de
ch, de prata, estava pousado sobre uma pequena mesa ao lado de um dos
sofs. A princesa riu, ao ver a expresso do duque.
- Ch ingls, s cinco horas. Eu me acostumei a isso na Inglaterra e
agora muitas pessoas em So Petersburgo seguem meu exemplo. No posso lhe
oferecer bolinhos, mas acho que gostar de blini.
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Eram pequenas panquecas de trigo integral recheadas com caviar e creme
azedo, que ele apreciava muito. Sentou-se numa confortvel cadeira e
esperou, enquanto a princesa servia o ch da mesma maneira que ele havia
visto sua me fazer muitas vezes, na Inglaterra.
- Quanto tempo vai ficar na Rssia? Ou ainda no decidiu?
- So as notcias do front que vo decidir por mim. Sony a sacudiu os
ombros.
- Agora que temos Kutuzov, tudo dar certo e venceremos! O duque achou
que estava sendo demasiado otimista.
- Espero que esteja certa. Voc devia dizer isso ao czar.
- De nada adiantaria. Voc sabe to bem quanto eu, Blake, que uma das
coisas de que os russos mais gostam  da tristeza e do abatimento, sempre
que h uma crise. Meu marido  assim tambm, mas com ele eu apenas espero
que o sol brilhe novamente.
- Uma adorvel filsofa - disse o duque, sorrindo.
No havia dvida de que dissera a verdade ao cumprimentar a princesa.
Quando o prncipe a desposou, era a mais linda mulher da corte de Viena
e, com a idade, tornara-se ainda mais bela. Entretanto, havia nela um
vigor que fazia com que o duque pensasse ser ela quem dirigia o marido,
como tambm a casa, de uma maneira bem pouco russa.
A maioria dos russos gostava de mulheres suaves, femininas e reservadas,
mas as duas famosas imperatrizes, Elizabeth e Catarina, serviram de
modelo que muitas esposas russas imitaram, sendo bastante ditatoriais.
A princesa, entretanto, no era russa e Blake sabia que ela se divertia
em fazer aquele tipo de crtica, simplesmente para desafiar o marido.
O prncipe era um homem bem-humorado e de fcil convivncia. Gostava de
ter paz em casa e em seu pas, e o duque estava certo de que, se agia
como um soldado agora, era contra a vontade e meramente por patriotismo.
A princesa falava de Londres e perguntava por seus amigos, quando a porta
se abriu e as duas bailarinas entraram. Sem dvida, Tnia era to bonita
quanto a me. Tinha cabelos negros e a pele muito clara, olhos
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grandes e bem separados e lbios carnudos e sorridentes. Quando fosse a
Londres, seria certamente um sucesso na corte.
- Esta  Zia - disse a princesa. - Ela veio conosco de Moscou para que
Tnia pudesse melhorar seu francs.
Pela primeira vez, desde que ela entrou na sala, o duque olhou para a
garota que vira danar e que, misteriosamente, o havia impressionado
tanto. Achava que seu deslumbramento tinha sido apenas uma iluso,
resultado do calor do dia, ou talvez do vinho que bebera no almoo.
Qualquer que fosse a causa, no desejava relembrar o acontecido e sabia
que, quando encontrasse Zia face a face, descobriria que tudo no
passara de uma fantasia de sua mente.
Uma delgada figura fez uma graciosa reverncia  sua frente. Ao erguer-
se, ele se deparou com dois olhos de um violeta profundo, num rosto
diferente de qualquer outra mulher que conhecia. No que fosse
particularmente bonita nem extraordinria. Na verdade, seu encanto no
era to aparente como o de Tnia. Mas havia algo em suas feies quase
clssicas: a linha reta do nariz, a perfeita curva dos lbios, a forma
oval do rosto, que trazia  mente do duque a lembrana das esttuas que
vira na Grcia e as que possua entre seus prprios tesouros.
Enquanto a olhava, pensava que a moa tinha a pureza de uma imagem de
santa. Teve mesmo a impresso de que uma luz fantstica emanava dela.
Estavam ainda imveis, com os olhos presos um no outro, quando a princesa
falou:
- Sentem-se, meninas, e tomem rpido seu ch. Quero falar com o duque,
que  um velho amigo, e preferimos ficar a ss.
Disse isso, enquanto servia o ch, e, ao levantar o rosto, percebeu que
Blake e Zia ainda no tinham se movido.
- Estou certa, Zia, de que  tempo de voc praticar sua msica. V 
sala de msica e diga aos criados que a sirvam l. Isto lhe poupar
tempo.
Zia fez ento uma reverncia e deixou a sala.
Ao v-la partir, um profundo sentimento de perda tomou conta dele. Teve
vontade de cham-la de volta.
- Venha sentar-se, Blake - pediu a princesa. - Conte  minha pequena
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Tnia sobre Londres. Ela no esteve mais l, desde aquela poca em
que tinha dez anos, mas tem as mais felizes lembranas dos parques e das
pequenas ruas estreitas.
Ento, como Tnia o olhava com expectativa, ele perguntou:
- Voc deseja mesmo visitar Londres? Posso lhe assegurar que no
encontrar l nem a metade da grandiosidade de So Petersburgo.
- Mame disse que participarei de bailes em Londres, que so muito mais
divertidos do que os que temos aqui.
- Isto  difcil de acreditar. com tantos jovens e atraentes oficiais
para acompanh-la...
- No, no momento. Eles esto todos distantes, lutando contra os
franceses, e h muitas mulheres bonitas em todas as festas. Ao dizer
isso, ela fez um beicinho e o duque riu.
- Vamos esperar ento que esta guerra termine logo.
- Guerra, guerra, guerra! - exclamou a princesa. - No se fala de outra
coisa! Eu planejei para Tnia festas adorveis no Palcio de Vero e
agora tudo o que nos resta fazer  ficar aqui, neste calor insuportvel.
- S posso dizer que sinto muito por voc - disse o duque, com um tom
cnico.
- Vamos falar de coisas mais interessantes - falou a princesa, com uma
leve mudana de humor. - Agora que voc est aqui, preciso lhe oferecer
um jantar, e danaremos depois ao som da fantstica banda cigana que
descobri recentemente.
Sorriu, antes de continuar.
- Estou tentando manter isto em segredo. Voc ser minha desculpa para
apresentar a minha descoberta a uma estarrecida So Petersburgo.
- E o czar aprovar? Afinal, ele est muito deprimido e preocupado com a
guerra.
- Ns no o convidaremos. Diremos que ser apenas um pequeno jantar em
sua homenagem, mas todos os meus amigos ntimos viro e Tnia e eu os
receberemos, no  verdade, querida?
Os olhos da moa brilhavam de contentamento.
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- Uma festa, com dana depois, mame! Ser to emocionante! Ainda hoje,
eu dizia a Zia como  aborrecido no ter o que fazer, nem onde ir.
- Voc tem seu bale - lembrou-lhe o duque.
- Estudei durante anos, para agradar papai. Zia dana muito melhor do
que eu.
- Zia est em outra categoria - disse a princesa, friamente. Agora, v,
querida. Mais tarde, eu a deixarei voltar e dizer adeus ao duque.
- Isso muito me agradaria - respondeu Tnia, dirigindo a Blake um olhar
coquete.
Fez ento uma reverncia e deixou a sala, enquanto a princesa a
observava.
- O que acha dela?
-  muito bonita, como a me. Certamente, ser um grande sucesso entre os
jovens de St. James.
- Eu gostaria que ela fosse um sucesso com voc.
- Comigo? Voc sabe que sou um solteiro inveterado! Alm disso, sou
muito velho para uma jovem to adorvel.
- Acho que Tnia seria mais feliz com um homem mais velho. Ela precisa de
algum que a guie e lhe d segurana.
- Voc j procurou saber se eu tenho algo em comum com uma adorvel
criana, que apenas deixou a sala de aula? No, minha querida Sonya, meus
interesses so outros, em relao s mulheres.
A princesa estendeu-lhe a mo coberta de jias.
- Sabe to bem quanto eu, Blake, que representa tudo o que h de
simptico, galante e atraente em um ingls.
- Eu lhe prometo que os mais bem qualificados jovens desfilaro na frente
de Tnia, quando voc a levar a Londres. Na verdade, acho que um de meus
irmos mais jovens lhe serviria muito bem - respondeu o duque, beijando-
lhe a mo.
Notou que, intimamente, a princesa calculava que, se ele nunca se
casasse, como dizia, seu irmo se tornaria o duque de Welminster, e Tnia
ocuparia ento a posio que ela tanto desejava para a filha. Porm,
disse simplesmente:
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- Eu sabia que podia contar com voc, meu amigo.
- Agora, fale-me sobre a amiga de Tnia.  uma garota bastante bonita.
Voc a levar tambm para Londres? - disse, tentando parecer
desinteressado.
- Pobre Zia, tenho tanta pena dela! No tem culpa das coisas serem como
so.
- O que voc quer dizer com isso?
- Esqueci de lhe contar quem ela .
- E quem ?
-  a filha de Pierre Vallon.
Por um momento, o duque no se lembrou de onde ouvira o nome. Depois,
exclamou:
- Voc quer dizer, o maestro?
- Claro! S h um Vallon no mundo da msica, e ele agora ocupa uma
posio excepcional.
- Eu o vi reger em Londres, no ano passado, e tambm h muito tempo
atrs, em Paris, quando eu era um menino ainda. Hoje ele  um dos maiores
maestros do mundo. Sempre achei suas composies incomparveis.
Blake sabia agora por que se sentira to atrado pela msica que Zia
danava e que havia lhe provocado to estranhas sensaes.
- No sabia que Vallon tinha famlia.
- Mas, naturalmente, conhece sua histria.
- Para dizer a verdade, no. Sempre o admirei e aplaudi, mas acho que
nunca o vi como um homem comum.
- Ento vou lhe contar.
A princesa adorava um mexerico e foi com os olhos brilhantes que soltou a
bomba:
- A esposa de Pierre Vallon era Natasha Strovolsky.
- Strovolsky!
Ele bem sabia que a famlia Strovolsky, uma das mais importantes da
Rssia, era extremamente orgulhosa de suas relaes com a realeza. Onde
quer que o czar estivesse, havia sempre um membro da famlia  sua
disposio, por direito, no somente como corteso, mas tambm por
33
nascimento, pois tinham o mesmo sangue. Os Strovolsky eram to
orgulhosos, to imperiais em seu comportamento, que se dizia, com ironia,
que o czar acordaria uma manh e encontraria um Strovolsky sentado
no trono.
Sem que a princesa precisasse dizer mais nada, o duque entendeu que a
ideia de um membro da famlia se casar com um maestro francs, ainda que
famoso, era impensvel.
- Como isto pde acontecer?
A princesa s esperava aquela pergunta para comear sua histria.
- Voc sabe que foi Grigori Orlov quem ps Catarina II no trono da Rssia
- comeou.
- Sim, naturalmente.
O conde Orlov era extremamente bonito e ambicioso e, em 1762, a Europa
descobriu, com surpresa, que, devido s suas maquinaes, uma princesa
alem, de origem plebeia, arrebatara a coroa da Rssia, primeiro do czar
Pedro in e, depois, de Paulo, filho de Pedro. Por isso, Catarina foi
acusada no s de usurpadora, mas tambm de criminosa e prostituta.
O pai do Blake, que visitava a Rssia na poca, dissera-lhe, e muitas
vezes, que a imperatriz era obcecada por seu amante, Orlov.
O velho duque dizia: "Acredito que ele a espanque na intimidade, mas est
apaixonada e eu nunca vi nada parecido com os presentes que ela lhe
oferece".
O duque lembrava agora que seu pai descrevera um traje que o conde usava,
no qual havia diamantes no valor de um milho de libras.
A princesa continuou:
- Dez anos aps sua coroao, a imperatriz Catarina decidiu substituir
seu amante Grigori Orlov.
- Porque ele estava tendo um caso com a princesa Golitsyna disse o duque,
sorrindo.
- Exatamente! Mas o que a imperatriz no sabia  que ele tambm se
apaixonara pela jovem princesa Strovolsky!
- Parece incrvel!
- Incrvel ou no, voc pode imaginar o escndalo, quando a famlia
descobriu que sua mais bonita e adorada filha esperava uma criana.
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A princesa fez um gesto eloquente com as mos, antes de continuar: - O
prncipe era um homem astuto e poderoso. Muito poucas pessoas, e somente
as mais chegadas, sabiam desta lamentvel e horrvel situao. Eles no
estavam somente humilhados com o fato, mas tambm apavorados em pensar
que a imperatriz pudesse descobrir tudo.
- E o que fizeram?
- Petya foi enviada para ficar com alguns amigos na ustria, e foi assim
que eu soube desta triste histria. Sua filha nasceu l e foi bati- zada
Natasha.
O duque ouvia atentamente e a princesa continuou:
- Um ano depois, Petya e a filha voltaram para a Rssia. Os Strovolsky
aceitaram o beb e anunciaram que Petya havia se casado com um primo
distante, que falecera em Viena.
- E acreditaram nisso?
- Mas claro! Ningum ousaria contradizer qualquer declarao feita pelo
prncipe Strovolsky.
- E depois, o que aconteceu?
- Natasha foi criada com a famlia. Petya casou-se com um dos primos de
meu marido e morreu ao dar  luz. Mas o conde Orlov foi o grande amor de
sua vida. Ela nunca amou mais ningum.
- Acredito que a imperatriz aceitou o conde de volta, no?
- Ela sempre dizia: "No posso passar um dia sem meu amor", pois sentia
desesperadamente a falta do amante. Na sua volta, ela o cobriu de
presentes, seis mil servos, um salrio de cento e cinquenta mil rublos e
s Deus sabe o que mais. Sem falar num magnfico solitrio de diamante,
considerado a jia mais linda do mundo!
- Por favor, continue com sua histria.
- Imagine agora a consternao na casa de Strovolsky: depois de terem
feito tudo para esquecer a humilhao e vergonha que Petya os fizera
passar, descobriram que Natasha, filha de Petya, fugira com o tutor.
- Ento  isto que Vallon era!
- Ele veio para a Rssia, como tantos outros franceses, para ensinar
lnguas, dana e msica s crianas de famlias nobres. Voc o conheceu,
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e por isso sabe que algum que recebe um homem to atraente, em uma casa
cheia de jovens, est certamente procurando problemas.
O duque concordou. Havia notado, durante um concerto, que Pierre Vallon,
alm de um belo homem, tinha um charme indiscutvel, que fazia as
senhoras presentes flertarem com ele o tempo todo.
- Como  a princesa Natasha?
- Ela era absolutamente adorvel!
- Era?
- Sim. Morreu h um ano. Por isso, sinto tanta pena de Zia. Eu a trouxe
de Moscou, enquanto o pai est regendo no Grande Teatro, para ajud-la a
esquecer esta tragdia, que, sem dvida,  muito pior para ela do que
para qualquer outra moa nas mesmas circunstncias.
- Por que voc diz isso?
- Quando a princesa era viva, a menina tinha alguma chance de conhecer
homens decentes e um deles poderia ignorar as consequncias sociais de um
casamento com ela, mas agora... Agora Zia  apenas a filha de um maestro
francs.
- Mas muito famoso. Um compositor cujo trabalho  considerado comparvel
ao dos grandes mestres da msica.
- Por mais talentoso que ele seja, voc sabe, meu caro Blake, que
socialmente no passa de um tutor francs, que conseguiu sucesso em sua
profisso. Sinto muito por Zia e estou certa de que, agora que Natasha
est morta, os Strovolsky no mais desejaro conhec-la. Na verdade, eles
j me disseram isso. No acredito que ela possa achar Paris interessante,
neste momento, com Bonaparte convocando para seu exrcito todos os homens
com mais de quinze anos.
- Entendo.
- Agora voc compreende como fui caridosa em traz-la para c. Tnia
gosta muito dela, e pelo menos as duas garotas se divertem juntas,
especialmente quando h to pouco divertimento.
Como se estivesse cansada de falar de Zia, a princesa mudou de assunto:
- Agora, vamos fazer planos, Blake. Que noite voc pode escapar
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AO palcio? S peo que me d algum tempo para faz-la uma ocasio bem
festiva.
- Tenho a impresso de que estaremos no livro negro do czar.
Ento, diga a algum para lhe dar outra bblia para ler! - respondeu a
princesa, spera. - Toda So Petersburgo est comentando que o prncipe
Golitzin o envolveu com as Santas Escrituras.
Antes que o duque pudesse responder, um criado entrou na sala e disse
alguma coisa em voz baixa para a princesa.
Oh, que aborrecimento! H um mensageiro de meu marido esperando l fora,
trazendo notcias do front e pedindo vrios documentos que s eu posso
encontrar.
O duque ps-se de p:
- Ento, preciso deix-la. Se escrever ao prncipe, por favor, digalhe
como estou desapontado por no poder encontr-lo.
- Ele tambm ficar desapontado. Sempre gostou muito de voc, como bem
sabe.
Dispensou o criado e disse, em voz baixa:
- Venha ver-me amanh e ns faremos os planos. Tambm tenho muito que lhe
falar, mas agora no h tempo.
Olhou-a, interrogativamente, e ela continuou:
- Tome cuidado com Katharina Bagration.
- Cuidado?
- Ela  muito ntima do czar, e todos sabem que ajuda o ministro das
Relaes Exteriores em suas investigaes.
Blake era muito educado para dizer que j sabia disso.
- Obrigado, cara Sonya. Voc sempre foi uma amiga bondosa e generosa e eu
lhe asseguro que sou muito grato - disse, beijando-lhe a mo.
Ao sair da sala, encontrou o mensageiro do prncipe esperando junto 
porta. Tinha o uniforme sujo e empoeirado e parecia ter cavalgado muito,
sem parar nem mesmo para dormir.
Atravessou o corredor, at alcanar a escada. Ia descer, quando ouviu
uma msica vinda do outro lado. Hesitou por um momento e, ento, decidiu
ir at a sala de onde vinha a melodia. Abriu a porta e entrou no
aposento, to imponente e magnfico como os outros do palcio.
37
Havia enormes colunas de um mrmore muito raro, que sustentava o teto
oval primorosamente pintado, e as paredes eram decoradas coiu painis de
deusas e cupidos. Numa pequena plataforma, ficava um piano. Zia tocava.
Ele fechou a porta e se dirigiu ao piano. Mais uma vez, teve a impresso
de que uma luminosidade envolvia a moa. Ela estava to concentrada no
que tocava que levou alguns minutos para notar a presena dele.
Imediatamente, parou de tocar, mas no se levantou. Seus olhos se
encontraram e nenhum dos dois se moveu. Finalmente, ele disse:
-  uma das composies de seu pai?
- Sim.
Sua voz era muito baixa, exatamente como ele imaginou que fosse.
- Eu conheci seu pai.
Um brilho repentino passou pelos olhos da moa, quase como se nele
houvesse um raio de sol. Estranho, pensou o duque, que seu cabelo seja to
claro.
Lembrou-se, ento, que Pierre Vallon no era moreno, como a maioria dos
franceses. No tinha certeza, mas achava que ele era da Normandi onde
cabelo claro e olhos azuis eram to comuns como na Inglaterra.
No havia dvida de que Zia possuia os olhos da me, mas eles no tinham
o mistrio que sempre notou nas russas. Ao invs disso, havia nela uma
espiritualidade inegvel.
O duque subiu no pequeno tablado, encostou-se no piano e disse:
- Fale-me de voc.
- O que deseja saber?
- Como aprendeu a danar como fez hoje?
Ela no mostrou surpresa e ele pensou que talvez o tivesse visto no
camarote, com a princesa.
- Quando era pequena, mame e eu costumvamos observar papai tocar para o
Corpo de Baile.
- Voc ia ao teatro?
- Sim... em Paris, ou onde quer que ele tocasse. Mame sempre o
acompanhava e ele gostava disso.
Sem que precisasse dizer mais nada, o duque entendeu que houvera
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um profundo amor entre os pais dela e, por isso, a princesa havia
renunciado a toda a pompa da corte.
- Como eu desejava danar como as bailarinas do Corpo de Baile, mame
arranjou para que tivesse aulas com uma famosa bailarina aposentada.
- Voc dana magnificamente.
- Gostaria de acreditar nisso. A msica que papai escreveu para mim  to
comovente que, quando a ouo, sinto como se estivesse em outro mundo,
onde s h paz e alegria.
 exatamente isso que sinto, quando a vejo danar, pensou Blake lembrando
das borboletas e pssaros que vira esvoaando em volta dela.
- Diga-me exatamente no que voc pensava, enquanto danava.
- Aquela msica de papai me faz lembrar da... primavera... das rvores,
dos pssaros, flores e borboletas.
O duque ficou calado, perplexo. A msica lhes transmitia a mesma coisa.
Disse, ento:
- Soube que sua me morreu. O que vai fazer, quando deixar So
Petersburgo?
- Vim apenas para uma curta visita, porque papai quis, mas hoje fiquei
sabendo que o exrcito francs est marchando em direo a Moscou. Por
isso, preciso estar com papai.
- Seu pai estar a salvo. Pierre Vallon  uma figura internacional e a
msica, como voc sabe, no tem nacionalidade,  universal.
-  verdade - disse Zia, sorrindo -, mas, ao mesmo tempo, nem sempre as
armas atingem o alvo para onde apontam. Se houver luta em Moscou, tenho
medo de que papai possa ser ferido.
- Acha que poder evitar que isto acontea, se estiver com ele?
- Pelo menos, estarei a seu lado...
- Acho que seria muito melhor, se seu pai viesse para So Petersburgo. De
qualquer maneira, quando voltar ao palcio, procurarei saber como est a
situao e informarei a princesa Sonya.
-  muita bondade sua - disse ela e suspirou. - Talvez eu esteja errada
em ter vindo para c e deixado papai sozinho, mas ele insistiu tanto para
que aceitasse o convite...
39
- Voc  feliz aqui?
Ela demorou um pouco para responder.
- Gosto de estar com Tnia... Ela  uma pessoa muito meiga falou como se
Tnia fosse uma criana, da qual precisasse tomar conta.
- Quantos anos voc tem?
- Vou fazer vinte.
O duque sabia que, em vinte anos, ela havia visto muito do mundo em suas
viagens com os pais, e por isso era mais amadurecida do que as moas da
mesma idade.
- Toque para mim - pediu.
- O que o senhor gostaria de ouvir?
- Alguma composio de seu pai, da qual voc tambm goste.
Zia correu os dedos pelo teclado. Suas mos eram pequenas e
perfeitamente proporcionais. Parecia ainda mais com as esttuas que
sempre o atraram. Possua telas dos maiores artistas da Europa, mas
sempre que voltava a uma de suas casas, eram as esttuas que mais o
agradavam. Agora, sabia que Afrodite se parecia mais com Zia do que
qualquer uma de suas telas da Madona, Vnus ou anjos.
Quando comeou a tocar, notou que podia ler seus pensamentos e sentir
dentro de si a resposta de Zia para a msica. De repente, o cu se
iluminou: o inverno chegou ao fim e todo o gelo e a neve se derre teram.
As rvores voltaram  vida, mostrando as primeiras folhas verdes da
primavera.
Tudo isso estava no ritmo e na melodia da msica, mas para o duque
parecia to real como se estivesse acontecendo na sua frente. Quase podia
sentir o calor do sol e o perfume das flores. Em seguida, no era s a
paisagem que ele via; mas algum caminhando em sua direo, por entre as
rvores, se aproximando cada vez mais. E ele sentiu todo seu ser ir ao
encontro daquele vulto.
De repente, tudo desapareceu. Restou somente o silncio. Percebeu ento
que Zia, ainda sentada ao piano, olhava para ele, ansiosa:
- O senhor... gostou?
- Oh, muito!
- Que bom... mas no toco to bem quanto papai.
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Como  o nome dessa composio?
Pagai chamou-a: "O nascer da primavera". H ainda uma ltima
parte... mas achei que talvez o senhor estivesse se aborrecendo...
O duque ficou calado por alguns instantes e, antes que pudesse falar, ela
continuou:
- Acho que o senhor... entendeu o que papai... quis dizer.
- Por que pensa assim?
- No sei exatamente, mas, enquanto tocava, senti que o senhor no ouvia
s a msica... sentia.
Neste momento, Blake percebeu que ela sabia exatamente o que ele sentira,
e no gostava do fato de estar agora to vulnervel. Disse, quase spero:
- Preciso ir. Obrigado, srta. Vallon, por tocar para mim. Estou certo de
que seu pai se orgulha muito de voc.
Sabia que a desapontara. Zia se levantou e fez uma reverncia.
- Adeus - disse ele, dividido entre o desejo de partir e de ficar mais um
pouco.
- Adeus... senhor.
Havia muita coisa que desejava perguntar a ela, mas no queria ouvir as
respostas. Atravessou a sala e dirigiu-se  porta, sem olhar para trs
para ver se Zia ainda estava junto ao piano e o seguia com os olhos.
A drotski o esperava para lev-lo ao Palcio de Inverno. Durante o
trajeto, tentou analisar o que sentira. Decidiu, mais uma vez, que no
podia explicar, nem a si mesmo, aquela estranha sensao de alegria
repentina. Isto o deixou bastante irritado.
- No posso estar ficando louco!
At mesmo lhe passou pela cabea a ideia de consultar uma vidente ou um
mdium, coisas em que nunca acreditou.
- A boa ou m sorte somos ns que fazemos. Nosso destino est em nossas
mos - disse em voz alta, como se quisesse convencer-se de que uma ideia
absurda lhe passara pela cabea.
Ele se perguntava, como era possvel que tivesse visto a mesma viso duas
vezes e tambm lido o pensamento de outra pessoa. Mais uma vez, pensou
estar bbado ou louco.
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- Quanto antes eu esquecer estas bobagens e comear a trabalhar melhor! -
disse ao descer da drotski e subir os degraus do Palcio do Inverno.
Agora, queria saber as ltimas notcias do front e tambm se comunicar
com lorde Castlereagh, em Londres. Um mensageiro poderia partir com um comunicado pela manh; assim, pelo menos, justificaria sua estadia em So Petersburgo at
o momento.
No saguo, entregou o chapu ao lacaio e notou um oficial dos graindeiros
da Guarda de Ouro que se aproximava:
- Boa noite, senhor. A princesa Katharina Bagration agradeceria se o senhor
pudesse visit-la, antes de se recolher a seus aposentos.
- Naturalmente. Terei o mximo prazer em ver Sua Alteza.
O oficial instruiu um criado para escoltar o duque at os aposentas da
princesa. Esperava que, ao v-la, todas suas ridculas fantasias
dissipassem. Katharina era uma mulher muito ardente, apaixonada,
exigente, e estas eram emoes que ele podia compreender, sentimento
que conhecia muito bem.
-   isso o que eu quero e nada, nada mais!
42

CAPTULO III

O duque esperava encontrar Katharina sozinha, mas a princesa estava com
um grupo de amigos na sala de recepo. Ela vestia uma roupa de gaze
azul, e estava linda. Veio em sua direo e Blake notou, pela expresso
de seus olhos, como estava feliz em v-lo. Beijou sua mo e depois
cumprimentou a czarina, que tambm estava presente, com o czar.
No fosse a terrvel cicatriz em seu rosto, Elisabeth Feodorovna seria
uma mulher bonita e parceira adequada para o atraente Alexandre. O duque
sempre a achou charmosa e emocionalmente mais estvel do que o marido.
Conversaram por alguns minutos, quando o czar os interrompeu:
- Tenho algo para lhe dizer, Welmnster - disse, afastando-o para um
canto.
Blake achou que ele estava com melhor aparncia do que na vspera.
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Notou que o desnimo, sempre aparente em seu rosto, dera lugar a uma
fora e vigor que s exibia quando precisava aparecer em pblico.
- O que se passa, senhor?
- Agora tenho certeza de que tudo acabar bem. A Rssia vencer Napoleo
e no h mais por que se alarmar. Esta manh recebi uma mensagem que me
convenceu de que meu medo e ansiedade eram sem fundamento.
- Uma mensagem do front, senhor?
- No, de Deus mesmo. Passei uma noite terrvel, at que, ao alvorecer,
fui at a janela e uma voz me disse para procurar inspirao na bblia.
Abri ento o Livro Sagrado e meu dedo apontou para uma frase que
respondeu a todos os meus problemas.
- E o que dizia, senhor?
- "Levante-se e brilhe, sua luz  chegada e a glria do Senhor est sobre
voc. "
Havia exaltao em sua voz e o duque sentiu mais uma vez que era um
perfeito representante do misticismo do povo russo.
- Estou contente, senhor, que isto tenha lhe trazido conforto. Sentindo
que o duque pisava em terreno perigoso, Katharina juntouse a eles.
- No  permitido segredar em minhas festas, senhor - disse alegremente
ao czar. - Estou ansiosa para saber o que aconteceu na visita de nosso
amigo ingls  princesa Ysevolsov.
Blake sorriu. Esta era a maneira de Katharina lhe informar de que sabia
onde ele estivera e que, se pensava que podia escapar do palcio sem que
ningum notasse, estava muito enganado!
Katharina continuou:
- Queria saber se voc encontrou a "Donzela de Gelo".
- A "Donzela de Gelo"?
- Por acaso est se referindo  filha de Vallon? - interrompeu o czar. -
Soube que ela chegou a So Petersburgo.
- Est hospedada com a princesa Ysevolsov, senhor, e estou certa de que
deixou muitos coraes partidos, quando saiu de Moscou.
- Por que a chamam de "Donzela de Gelo"?
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- O gro-duque Boris pode lhe dar uma boa explicao para isso -.
respondeu ela, rindo.
-  verdade - concordou o czar. - Ouvi dizer que as caladas na frente da
casa de Vallon, em Moscou, esto gastas, de tanto o gro-duque passar por
ali.
- Mas a porta sempre esteve fechada para ele, e agora que ela no est
mais l, aposto que Boris est  beira do desespero. Ele tem obsesso por
Zia Vallon, desde a primeira vez que a viu, mas Vallon, conhecendo sua
pssima reputao, barrou-lhe a entrada, e Boris no est acostumado a
ficar de fora, no frio.
- Vai lhe fazer bem! - disse o czar e se afastou para falar com outras
pessoas.
O duque tambm pensava assim, mas zangou-se com a ideia do groduque
manchar a reputao de algum to puro como Zia.
Ocorreu-lhe que sua beleza atraa os homens, especialmente homens como
Boris. Ela lhe parecera uma criatura distante de todas as intrigas do
mundo social. Entretanto, agora ele compreendia por que Pierre Vallon
insistira para que sua filha deixasse Moscou e fosse para So
Petersburgo. O gro-duque era um dom-juan promscuo, sempre atrs de
alguma mulher. Onde quer que fosse, era conhecido por seus casos de amor
e comportamento extravagante.
Quando jovem, casou-se com uma princesa alem, inspida e sem atrativos.
Mais tarde, abandonou a esposa e os filhos, assegurando-se de que ela
nunca apareceria em So Petersburgo ou Moscou. Isto deixava-o livre para
perseguir as adorveis mulheres da corte russa, que eram das mais
atraentes que o duque j vira. Era ridculo de sua parte, pensou,
criticar o gro-duque, quando sua prpria reputao deixava muito a
desejar e seus casos eram comentados em toda a Inglaterra, e agora tambm
em So Petersburgo.
Ao mesmo tempo, compreendia a preocupao de Vallon pelo fato de Boris
querer se aproximar de sua filha, e estava certo de que, antes de morrer,
a princesa Natasha ficara amedrontada com as consequncias que aquele
interesse poderia trazer para uma garota to jovem.
- Boris  Boris, e sabemos exatamente como ele  - disse Katharina
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ao duque, como se tivesse lido seus pensamentos. - Afinal, a "Donzela de
Gelo" poderia ter algum pior ainda.
- Voc est sugerindo que uma garota to jovem como ela deveria aceitar a
proteo do gro-duque, apesar de sua pssima reputao? perguntou, to
rudemente, que ela o olhou, assustada.
- No sabia dessa sua hostilidade por Boris. Pessoalmente, seus romances
no me preocupam. Depois, que alternativas restam para a filha de um
msico francs?
- Cus! Voc e Sonya Ysevolsov falam como se ele fosse apenas o
pistonista de alguma orquestrazinha! O homem  um gnio! Nunca vi o
prncipe regente to comovido e entusiasmado, como quando o ouviu tocar
em Carlton House.
Katharina sacudiu os ombros.
- Concordo que sua msica seja boa e que ele tenha grande sucesso no
mundo musical, mas estamos falando de sua filha, a "Donzela de Gelo. "
- Isto  o que eu espero que ela seja em relao ao gro-duque: de gelo.
- Pelo que sei, ela no lhe d nenhum encorajamento. Talvez esteja
secretamente apaixonada por algum pretendente sem importncia, do qual
seu pai no tem conhecimento.
O duque quase respondeu que Zia no enganaria ningum, muito menos o
pai, porque no era de sua natureza agir assim. Mas se dissesse isso,
pareceria um tolo, preocupando-se com uma garota que vira somente uma
vez. O que lhe importava se algum a perseguia ou cortejava? Teve um
impulso de ver Vallon e discutir com ele o futuro de sua filha;
aconselh-lo, por exemplo, a lev-la para a Inglaterra, onde seria mais
bem-aceita do que na conservadora Rssia. No havia maior esnobismo no
mundo do que na corte do czar.
Sonya e Katharina estavam certas ao dizer que no havia a mnima chance
de algum da nobreza oferecer casamento a Zia. Entretanto, o duque
achava impossvel pensar nela, descendo do pedestal no qual ele a
colocara, e v-la desonrada com o tipo de vida que o gro-duque lhe
queria dar.
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- Por que devo me preocupar?
Porm, durante todo o tempo em que permaneceu na sala de recepo de
Katharina, seu pensamento estava em Zia, e no em Napoleo e na invaso.
Logo depois que o czar e a czarina se retiraram, despediu-se de
Katharina, pois ainda precisava vestir-se para o jantar que logo seria
servido
- Venha cedo, esta noite - disse ela, quando ele lhe beijava a mo
- Preciso lhe falar.
No havia como negar o convite em seu olhar.
 isto o que eu quero, pensou Blake, caminhando pelo corredor.
Entretanto, quando chegou aos seus aposentos, j no pensava mais em
Katharina, mas em Zia. Ainda achava incrvel ter experimentado aquelas
estranhas sensaes ao ouvi-la tocar.
Dirigiu-se  janela e observou os ltimos raios de sol refletindo nas
guas do Neva.
-  tudo por culpa desta atmosfera! Por que Pedro, o Grande, no decidiu
construir a cidade em um lugar de clima melhor, em alguma outra parte do
pas?
Olhava para a gua, imaginando como seria no inverno, quando o rio
congelasse.
A "Donzela de Gelo"! Ser que ela tambm derreteria com a chegada da
primavera, como na msica que seu pai comps?
Naquele momento, o lacaio entrou no quarto para ajud-lo a se vestir.
Algum tempo depois, dirigiu-se pelos longos corredores  ala que o czar
ocupava no Palcio de Inverno.
Alexandre, ao contrrio de seus predecessores, optara pela simplicidade e
dispensara toda a pompa e riqueza reais, que eram o costume na corte
russa, durante muitos reinados. Infelizmente, aos olhos do povo russo,
isto diminua sua popularidade, em vez de aument-la.
O duque admirava-o por essa atitude, pois sabia que no era uma tarefa
fcil mudar alguma coisa na hierarquia russa. A vida no Palcio de
Inverno era bem diferente da Rssia verdadeira, onde a fome e a extrema
pobreza imperavam. Lembrava-se de um relatrio que um embaixador
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ingls lhe enviara algum tempo atrs, falando das pssimas condies em
que vivia o povo.
"H sessenta, oitenta, cem mil pessoas que no tm o que comer. No h um
rosto que no esteja marcado e distorcido pela bebida. Vestidos em
farrapos, eles apenas vegetam. So a escria da sociedade, de uma nao
de oito milhes de habitantes, e nada pode ser feito por eles; alis,
ningum est nem um pouco interessado. "
De repente, o duque sentiu-se angustiado e ansioso por deixar aquele pas
e voltar  Inglaterra.
Tnia entrou no quarto de Zia, onde esta remendava as rendas de seu
vestido, que haviam rasgado.
- Mame quer que eu v com ela visitar alguns amigos. Perguntei se voc
podia vir tambm, mas ela quer que eu v sozinha.
- Mas claro! - respondeu Zia. - Estarei lhe esperando, quando voc
voltar.
- Mas eu queria que voc fosse conosco - disse Tnia, desanimada.
-  to mais divertido depois, quando voltamos para casa e podemos
comentar sobre as pessoas, os lugares onde fomos!
- Se sua me deseja que v sozinha com ela, no h nada que possa fazer.
Quando voltar, conversaremos sobre tudo o que viu e isto tambm ser
divertido.
- No ser divertido para mim. No posso entender por que mame est
agindo assim. Ela sabe como gostamos de estar juntas.
- Trs mulheres sem um homem para acompanh-las  muito embaraoso -
disse Zia, sorrindo. - V e divirta-se, querida. Mais tarde, ensaiaremos
uma nova dana para agradar sua me e lhe fazer uma surpresa.
- Gostaria mais de danar com o duque ingls que esteve aqui ontem! Mame
tem me falado dele. Disse que tem um irmo que est interessado em me
conhecer, quando ns formos  Inglaterra.
Zia notou a palavra "ns", mas no disse nada. Apenas arrumou o cabelo
de Tnia sob a boina e lhe deu um rpido beijo.
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- No faa sua me esperar. Voc est muito bonita e estou certa de que
muitas pessoas vo lhe dizer a mesma coisa.
- Eu queria tanto que voc viesse tambm! - insistiu a outra, antes de
sair.
Zia levantou-se para fechar a porta, mas mudou de ideia. Deixou de lado
as rendas que estava remendando e desceu.
Agora que no havia ningum em casa, podia tocar piano e praticar uma
msica nova, cuja partitura chegara pela manh de Moscou. Seu pai enviou-
a com uma carta falando do sucesso que fez com sua orquestra numa
apresentao na noite anterior. Dizia tambm:
"H rumores, muito alarde e pnico, sem necessidade. Fico contente que
voc esteja a salvo, em So Petersburgo. Ao mesmo tempo, sinto muito sua
falta e espero que possamos estar juntos novamente. No se preocupe e
procure divertir-se. Eu amo voc, minha querida filha, e sempre que toco
nossa msica, sinto-a bem prxima de mim". Zia leu e releu a carta
vrias vezes.
No havia ningum como seu pai, que podia dizer exatamente as coisas que
ela esperava ouvir e que traziam alegria ao corao.
Era verdade que, quando tocavam uma certa msica, estavam to perto um do
outro, que Zia ficava imensamente feliz. Sabia que, dessa maneira, o pai
procurava compensar a perda da esposa que tanto amara, desde o momento em
que fugiram para se casar.
- Este  o tipo de amor que espero encontrar um dia. Como ela sempre
viveu vendo um exemplo de amor e felicidade conjugal, no podia se
satisfazer com um amor que no fosse to perfeito; ou com um homem que
no fosse parte dela mesma, assim como tambm ela seria parte dele. Era
difcil traduzir em palavras o que sentia, mas podia diz-lo com a
msica.
A maioria das composies do pai procurava expressar seu amor pela
esposa. Por isso, quando Zia tocava, tentava sentir na msica tudo o que
buscava de belo e sagrado no amor que desejava um dia para si.
Desde que o pai fora para Moscou, h dois anos, muitos homens haviam se
aproximado dela para cortej-la. Foi ento que a me lhe
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explicou sua exata posio na vida. Disse que cometera um crime
imperdovel em fugir com seu tutor, pois a famlia Strovolsky era uma das
mais importantes da Rssia e, pertencendo  aristocracia, no poderia
casar com um simples msico.
- Eu sabia que meu av tentava, de todas as maneiras, encontrar-me um
marido para que eu esquecesse meu amor pelo seu pai - disse a princesa
Natasha. - Mas alguma coisa dentro de mim se rebelou contra isso e decidi
enfrentar tudo pelo amor que sentia por Pierre.
- Eu posso entender, mame.
- Eu queria amor, amor verdadeiro. O mesmo amor que, certo ou errado,
minha me deu ao conde Orlov, e a ningum mais.
Natasha prosseguia:
- Um dia, minha filha, voc poder enfrentar a mesma situao. Lembre-se:
amor de verdade, como o que sinto por seu pai, vale qualquer sacrifcio,
e nada, nada mais importa.
Quando Zia viu a agonia que o pai sofreu, quando a me morreu, teve
certeza do quanto valia um amor to forte. Compreendeu, tambm, que a
morte da me havia trazido uma nova dimenso  msica dele. Havia agora
nela uma profundidade que nunca notara antes.
- Isto tudo  o amor que faz. Aumenta a capacidade e alarga os horizontes
daqueles que o encontram - dissera-lhe o pai.
Enquanto descia, ouviu a princesa e Tnia saindo do palcio. No
pretendia dizer nada a Tnia, mas sabia exatamente por que a princesa
queria sair s com a filha. No era s porque se sentia embaraada pelo
fato do pai de Zia ser um msico e um francs, mas tambm porque a
beleza de Tnia no aparecia, comparada  de Zia.
Quando a convidou para ir a So Petersburgo com elas, a princesa no se
deu conta deste fato, perigoso para o sucesso da filha no mundo social.
Na verdade, Zia preferia ter ficado em Moscou, com o pai, mas ele
insistiu para que acompanhasse a princesa.
- O gro-duque est se tornando cada dia mais insistente - ele lhe
dissera. - Quando no estou com voc, minha querida, preocupo-me
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por ter de deix-la s. Acho que esta ansiedade est tambm interferindo
em meu trabalho.
- Mas talvez ele me siga at So Petersburgo...
- Ele certamente far isso, mas a princesa saber como se livrar dele,
melhor do que eu mesmo.
Zia sabia o que ele queria dizer. Era muito difcil para algum, mesmo
para um homem respeitado e famoso como seu pai, ofender uma pessoa to
importante como o gro-duque Boris. J a princesa podia falar com ele de
igual para igual, e ele no se comportaria mal, enquanto ela estivesse
com Tnia.
Devido  insistncia do pai e tambm ao fato de estar um pouco
amedrontada, Zia concordou em acompanhar Sonya Ysevolsov e seu enorme
squito de criados a So Petersburgo.
Fora o gro-duque que a apelidara de "Donzela de Gelo", e todas as
pessoas da corte j sabiam disso. Quando aparecia em algum lugar,
olhavam-na com interesse, imaginando quem seria o afortunado que
derreteria o gelo.
A princesa se enfurecia com o fato de todas as atenes estarem voltadas
para Zia. Queria que todos se concentrassem em sua filha, para a qual
planejava um brilhante casamento. Foi ento que, chegando a So
Petersburgo, Zia foi colocada em seu devido lugar, como dama de
companhia e professora de Tnia.
Sonya era uma pessoa de bom corao; entretanto, estava preparada para
lutar ferozmente pelo bem-estar da filha e para lhe arranjar o casamento
mais vantajoso da Europa.
Isto, aos olhos da princesa, significava casar-se fora da Rssia.
J vira o bastante da decadncia da sociedade russa e era quase
impossvel encontrar, nas relaes de seu marido, algum que fosse feliz
e tivesse um bom casamento. E desejava para Tnia no s um lugar de
destaque na sociedade, mas principalmente um casamento feliz.
Os ingleses sempre foram tidos como excelentes maridos. No que no
tivessem seus pequenos momentos de infidelidade, mas, no geral, pareciam
fiis e felizes com suas esposas e crianas.
A estadia do duque de Welminster no palcio do czar era, portanto,
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uma oportunidade que a princesa no podia perder. Ela mesma j havia
flertado com ele em algumas ocasies e o achou fascinante, quando o
encontrou em Londres e, depois, em Viena.
-  o tipo de homem que sempre admirei - disse a si mesma. Sabia que o
duque tambm a achava atraente e era difcil resistir ao
impulso de t-lo como amante. Porm, seria um triunfo muito maior t-lo
como genro. Esperava que mudasse de ideia, quanto a ficar solteiro pelo
resto da vida. Em caso de dvida, entretanto, deixaria seu irmo
na reserva.
Ao sair do palcio, comeou novamente a falar com Tnia sobre a posio
que Blake ocupava na sociedade inglesa, de suas magnficas manses e
propriedades e das boas qualidades que possua.
Enquanto se dirigia ao primeiro andar, Zia tambm pensava no duque.
Havia notado sua presena, ao fundo do camarote, enquanto danava, e isso
era estranho, pois quando se concentrava na msica de seu pai, esquecia-
se de tudo o mais.
Ao entrar no Salo Branco, depois do espetculo, ainda o via como parte
da msica de autoria de seu pai. Era uma sensao estranha, diferente,
que ao mesmo tempo lhe parecia muito familiar. Um sentimento que vinha de
seu ntimo e que acontecia sempre que danava ou tocava uma das
composies dele.
Per r Vallon entendia o que ela sentia.
- Quando componho, minha querida, sinto como se uma porta se abrisse
dentro de mim para deixar a msica entrar. Depois, somente ouo e deixo a
melodia fluir.
- O mesmo acontece quando dano, papai. Apenas ouo e depois j sei o que
fazer.
Sorriram. No havia necessidade de explicar: ambos entendiam.
- O duque compreendeu tambm - pensou Zia, ao se aproximar do piano.
Sentou-se e comeou a tocar. Tocava e via os olhos de Blake presos
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aos seus, como da primeira vez em que se encontraram. Depois, notou a
expresso de seu rosto, quando a msica acabou. Sabia, naquele momento,
que ele entendera exatamente o que ela sentia.
- Como isso  possvel? - perguntou-se.
Mas no havia dvida de que no era apenas possvel, como tinha realmente
acontecido.
Continuou a tocar e no ficou surpresa ao v-lo de repente entrar na sala
e caminhar em sua direo.
Aproximou-se e inclinou-se sobre o piano, como tinha feito no dia
anterior.
- Sabia que iria encontr-la sozinha aqui.
- Como... sabia... disso?
- Descobri ontem  noite que a princesa e sua filha iriam ao Palcio de
Inverno, hoje  tarde, e tive um pressentimento de que voc no estava
includa na visita.
Zia ficou calada e ele continuou:
- Posso estar errado, mas quando subia as escadas e ouvi o que voc
tocava, tive a estranha sensao de que pensava em mim.
Mais uma vez, seus olhos se encontraram e Zia disse, suavemente:
- Eu... pensava em voc... a mesma coisa que senti ontem quando... tocava
a composio de papai e... voc compreendeu.
- Sim. Lutei contra isso, mas compreendi. Voc comps o que estava
tocando agora?
- Ouvi esta msica... na primeira vez em que... pensei em voc. O duque
prendeu a respirao. Havia tanta simplicidade naquela confisso, que
teve medo de acreditar.
- O que voc fez comigo, Zia? Nunca em minha vida me senti assim!
- Assim, como?
- Vendo coisas, ouvindo coisas. Sendo mstico. Isso  completamente
contrrio  minha natureza.
- Como pode... ter certeza? Se assim fosse, voc no poderia... ter
compreendido o que... aconteceu ontem.
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- Como pde acontecer? Tem alguma coisa a ver com a Rssia? Ou teria
acontecido, se tivssemos nos encontrado em Londres, tambm?
Zia olhou para o teclado, antes de responder.
- Eu acho que... quando acontecem coisas conosco... como voc est
tentando dizer...  porque estamos prontos para elas. Podemos ouvir a
mesma msica... olhar para o mesmo quadro e isto nada significa... mas
de repente...
- De repente h algo mais - interrompeu o duque. - Uma viso que eu tinha
certeza de ser pura imaginao, at que vim hoje aqui. No momento em que
a vi novamente, soube que tudo tinha sido real. E  isto que me pergunto:
o que voc fez para mim? Por que estou me sentindo assim?
Ela dirigiu-lhe o mais lindo sorriso que j tinha visto.
- Simplesmente... aconteceu. Explicaes... no so necessrias.
- Naturalmente. Mas estou curioso. Aconteceu tambm com outros homens?
Havia um pouco de agressividade em sua voz, e Blake aguardou a resposta
de Zia que naquele momento era de extrema importncia para ele.
- S com papai. Ele entende... ns sentimos a mesma coisa... mas com...
ningum mais.
O duque sentiu-se aliviado por saber que seus receios eram infundados.
- Voc tocaria alguma coisa para mim?
Zia ergueu as mos para comear a msica. Ento, inesperadamente,
deixou-as cair novamente no colo.
- Voc me deixa... sem jeito. Eu no... posso... pensar na msica...
porque voc... est aqui.
- Em outras palavras, voc est pensando em mim. Ento, deixe a msica
para depois. Venha sentar-se no sof e fale-me de voc.
Por um momento, Zia no se moveu. Depois disse:
- Acho que Sua Alteza no gostar, quando souber que voc veio aqui,
enquanto ela estava ausente. E ns... estamos... a ss.
- E o que importa? Talvez ela no fique sabendo.
- Saber, porque os criados lhe diro. Tudo se sabe... na Rssia. Isso
era verdade. Da mesma maneira que Katharina soube que ele
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tinha sado do palcio, na vspera, para visitar a princesa. Concluiu que
no importava e no se preocupava com o que ela dissesse ou pensasse. Mas
o fato poderia trazer consequncias para Zia. Pela primeira vez em
muitos anos, percebeu que suas aes poderiam afetar outro ser humano.
- Nesse caso, acho que devo partir imediatamente.
- Eu quero que voc... fique - disse Zia, num tom de voz muito baixo. -
Gostaria muito de conversar com voc, mas acho que seria correto pedir-
lhe que se v.
- Vamos fazer um acordo. Ficarei um pouquinho mais, mas no devemos
perder um s segundo de nosso tempo juntos.
Estendeu a mo na direo dela:
- Venha. Vamos nos sentar confortavelmente e aproveitar que estamos a
ss.
Ao se tocarem, sentiram as vibraes que passavam entre eles. Zia
levantou a cabea e encarou o duque. Por um momento, nenhum dos dois se
moveu e o tempo pareceu parar. Ento, tirou a mo da dele e se dirigiu
para o sof de cetim, entre as colunas de mrmore.
Blake admirava a graa com que ela se movia. Sentou-se a seu lado e,
olhando-a nos olhos, disse:
- Ouvi muito sobre voc na noite passada. Disseram-me que  chamada de
"Donzela de Gelo".
Ela baixou os olhos, embaraada, e um rubor subiu-lhe s faces.
-  um... nome tolo... imaginado por uma... pessoa tola.
- Por que diz isso?
- Porque no sou feita de gelo. Exceto, para uma pessoa... em particular.
- O gro-duque?
- Sim. No gosto dele. Est sempre... ameaando papai.
- De que maneira?
- Ele disse a papai que o expulsaria da Rssia e que no mais poderia
reger aqui, a no ser que... eu fizesse o que ele desejava.
- Isso  intolervel! O gro-duque no tem o direito de se comportar de
maneira to pouco civilizada.
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- Foi isso que papai disse. Falou tambm que no tinha poder nenhum sobre
ele. Mas ao mesmo tempo... tenho medo.
- Por qu?
- O gro-duque  um homem muito obstinado. Tenho o pressentimento de que
tambm pode ser cruel e sem escrpulos, se assim lhe convier.
- Voc estar a salvo aqui em So Petersburgo.
- Espero que sim. Sua Alteza ... muito bondosa.
- Tenho certeza de que ela a proteger. Se houver algum problema, eu
tambm estou aqui.
Zia olhou para Blake e ele teve a impresso de que ela olhava dentro de
seu corao, como se buscasse alguma coisa.
- Voc no deve se envolver com nada que possa trazer-lhe proble mas com
o czar. Eu soube como ele gosta de voc. De qualquer maneira,
os assuntos russos no lhe dizem respeito.
- Mas voc no  russa - disse o duque, sorrindo. - Pelo menos, no
inteiramente. Voc  metade francesa.
- Isso piora as coisas! A Inglaterra est em guerra com a Frana!
- No momento, a Rssia tambm.
- Estou preocupada com papai, em Moscou. Se os franceses chegarem at l,
a luta ser terrvel.
- Estou seguro de que os russos no permitiro que os franceses cheguem 
capital.
-  tudo to horrvel, to desnecessrio! Eu adorava Paris, quando era
garotinha e vivia l. Parte o corao de papai pensar em quantos homens
foram mortos sem razo, apenas para satisfazer a ambio insacivel de um
homem que nem mesmo  francs, mas corso!
Era um lamento que ele tinha ouvido de muitos franceses, e no sabia o
que responder.
- Sei que lhe trarei problemas, se ficar aqui por mais tempo, mas
voltarei a v-la. Se precisar, no hesite em me chamar. Prometa-me que
far isso.
- Eu... prometo.
Ento, ambos se levantaram e o duque tomou sua mo.
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Ela sentiu o calor dos lbios dele na maciez de sua pele.
- Cuide-se bem - disse o duque. Depois, deixou a sala, sem olhar para
trs.
Zia ficou parada por um momento, olhando-o se afastar. Depois, como se
quissesse acalmar o tumulto que havia dentro dela levou as mos ao peito.
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CAPTULO IV

A princesa Ysevolsov e Tnia se dirigiram primeiro a um magnfico palcio
s margens do Neva, onde vivia uma velha parenta. Era uma senhora muito
idosa, que j tinha passado por tantos acontecimentos dramticos, que
nada mais lhe importava. Entretanto, admirava muito o czar e falava
constantemente de seu charme e boa aparncia.
- Alexandre - disse ela -  exatamente o tipo de governante que os russos
sempre desejaram, por muitos sculos. Voc ver que ele ocupar o lugar
que merece na Histria.
Tnia achou a visita um tanto aborrecida, mas contentou-se em admirar os
belos objetos de arte que decoravam o palcio.
Quando partiram, sua me disse:
- Pelo menos uma pessoa est satisfeita com a maneira como a Rssia
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 governada. Entretanto, tenho o pressentimento de que tal exaltao
de Sua Majestade Imperial  bastante incomum.
- Acho que todos respeitam o czar, mame. Ele  to atraente e parece
muito autoritrio em seu uniforme.
A princesa conteve as palavras speras que lhe vieram aos lbios e
comeou mais uma vez a falar do duque.
- Voc deve dar-lhe ateno, Tnia. Sorria para ele, pergunte-lhe suas
opinies sobre alguns assuntos; mas, sobretudo, no o aborrea com
observaes tolas.
- E o que so observaes tolas, mame?
A princesa olhou para a filha, admitindo que, apesar de ser adorvel, no
tinha capacidade para entreter um homem to sofisticado como Blake.
A prxima visita foi ao Palcio de Inverno, onde pediram uma audincia
com a czarina.
Elisabeth Feodorovna sempre gostou muito da princesa. Por isso, concordou
logo em receb-las.
Sony a e Tnia foram conduzidas a seus aposentos particulares, onde a
czarina as recebeu, mais alegre do que de costume. Contou-lhes que estava
mais feliz com o czar pois ele no mais passava longas horas com sua
amante, Maria Naryshkina. Entretanto, a situao de sua adorada Rssia a
preocupava.
- Estou certa de que Deus no nos abandonar. Mas a Rssia sofrer, e ns
com ela, partilhando cada momento de sua agonia.
A princesa apertou levemente a mo dela, para lhe dizer que se
solidarizava com seu sofrimento.
Depois, em voz baixa, a czarina continuou a falar sobre seus programas
anuais de caridade.
J entardecia e Sonya estava pensando em se retirar, quando a porta se
abriu de repente e uma das damas da corte entrou correndo, gritando,
desesperada:
- Majestade... Senhora!
A imperatriz levantou-se, apreensiva.
- O que h de errado? O que aconteceu?
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- Esto dizendo, senhora, que os franceses esto se dirigindo para So
Petersburgo.
- No pode ser verdade!
- Foi o capito da Guarda de Ouro que me contou, senhora. Ele foi
informado de que o governo est planejando evacuar a cidade.
- No acredito nisso! Preciso ver Sua Majestade Imperial imediatamente!
Ao dizer isso, deixou a sala, e a princesa e Tnia comearam a andar em
direo  entrada do palcio.
Os corredores estavam cheios de gente correndo de um lado para outro,
falando alto, numa terrvel confuso.
De repente, a princesa esbarrou em uma amiga, que lhe gritou, histrica:
-  inconcebvel que sejamos ameaados aqui! Certamente algum vai deter
o inimigo antes que nos alcance!
- Tenho certeza disso.
- Juro que prefiro cortar minha lngua a ter que falar francs novamente!
E cada francs, homem e mulher, devia ser expulso da cidade
imediatamente, ou enviado para a Sibria!
Dizendo isso, foi levada com as outras pessoas, correndo e gritando
contra os franceses e seu lder, Napoleo. Ao deixarem o palcio, Tnia
perguntou:
- Os franceses vo nos matar, mame?
- Seu pai e o exrcito russo os detero bem antes que alcancem So
Petersburgo - respondeu a princesa, com firmeza, ao mesmo tempo que
murmurava uma prece.
De volta ao palcio Ysevolsov, tudo parecia calmo e quieto, depois do
tumulto. Era bvio que as notcias ainda no tinham chegado at l, e o
mordomo simplesmente disse:
- O duque de Welminster, esteve aqui, enquanto Sua Alteza estava fora.
- Voc lhe disse a que horas estaramos de volta?
- Ele no perguntou, Alteza, mas passou algum tempo conversando com a
srta. Vallon. Talvez ela o tenha informado sobre sua volta.
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- Conversou com a srta. Vallon? - perguntou a princesa, irritada.
- Perguntou por ela, Alteza, e eu disse que ela estava na Sala de Msica.
A princesa apertou os lbios. Pensou vrias vezes sobre a maneira
estranha como o duque e Zia haviam se olhado na primeira vez que se
encontraram. Agora, ao se lembrar de como tinha mostrado interesse por
ela, ficou furiosa. Sem dizer nada a Tnia, subiu as escadas e, ao chegar
ao patamar, ouviu o piano, que lhe indicava onde Zia poderia ser
encontrada.
Abriu a porta. A moa estava sentada ao piano, cabea erguida, olhar
perdido, completamente indiferente ao que acontecia  sua volta. Tinha
uma expresso radiante que a fazia parecer rnais adorvel do que nunca.
A princesa bateu a porta com fora. Zia parou de tocar e se levantou.
Ao se aproximar do piano, a princesa Sony a disse, secamente:
- Soube que o duque de Welminster esteve aqui.
- Sim, senhora.
- E ele ficou por algum tempo?
- No muito, senhora.
- Quanto tempo?
- No sei exatamente.
- Voc sabe to bem quanto eu, que no tem o direito de receber
cavalheiros na minha ausncia. Esta no  a maneira de uma jovem se
comportar,
- Sinto muito, senhora. Mas o duque entrou inesperadamente na sala.
Quando soube que a senhora no estava em casa, logo partiu.
- O que ele disse? Sobre o qu vocs conversaram? Zia ficou em silncio
por algum tempo.
- Sobre msica... e meu pai.
A honestidade dela e a maneira direta como respondeu enfureceram ainda
mais a princesa. Todo o ressentimento que sentia por Zia ofuscar Tnia
com sua beleza e pela maneira como atraa os homens sem precisar fazer
praticamente nenhum esforo, explodiu.
- Seus compatriotas esto marchando para So Petersburgo. Eles ameaam
nossas vidas e tudo o que temos de mais caro e sagrado. 
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melhor voc voltar para seu pai, pois no tenho a menor inteno de
abrigar o inimigo!
Zia ouviu tudo, pasma. Depois disse, muito digna:
- Compreendo, senhora, que deverei partir imediatamente para Moscou. S
posso lhe agradecer por sua hospitalidade, em meu nome e no de meu pai.
Fez uma reverncia, e a princesa falou, um pouco menos agressiva:
- Mandarei vir uma carruagem para voc e alguns de nossos criados de
confiana para acompanh-la.
- Obrigada, senhora.
Fez outra reverncia e deixou a sala.
O duque estava com o czar, quando os rumores de que Napoleo estaria
vindo em direo a So Petersburgo chegaram a seus ouvidos. Alexandre leu
o comunicado que lhe foi trazido por um criado e empalideceu.
Depois de ler tambm, Blake falou:
- Honestamente, no acredito nisso, senhor.
- Por que no?
- Porque, se fosse verdade, o general Kutuzov lhe teria dito alguma coisa
a respeito.
- O comunicado no  dele?
- No, senhor. Foi-lhe enviado pelo conde Povolsky. Acho que o senhor se
lembra; ns o encontramos em Viena.
- Sim, sim, lembro-me.
- Sempre considerei o conde um homem falso e sem escrpulos. No sei qual
a posio que ocupa no exrcito russo, mas acredito que no seja alta.
O czar tomou o documento das mos dele e leu novamente.
- Acho que voc tem razo. No devemos dar ateno a isto, at termos a
confirmao de Kutuzov.
Infelizmente, quando o duque deixou os aposentos do czar, percebeu que
todos os membros do governo j sabiam da notcia: o mensageiro
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que a trouxera se encarregou de espalh-la pelo palcio e por toda So
Petersburgo. Isso jamais aconteceria na Inglaterra, pensou.
A maioria dos nobres estavam empacotando seus valores e viajando para
suas casas no campo. S os pobres ficavam para trs, desprotegidos e
completamente sem ajuda.
Blake estava certo de que So Petersburgo no era o objetivo militar de
Napoleo, e sim Moscou. Por isso, era muito pouco provvel que ele se
desviasse de sua rota para ir at l.
Sem saber para onde se dirigir, resolveu ir conversar com lorde Cathcart,
o embaixador britnico. Este o informou de algo que ele no sabia: sir
Robert Wilson, conhecido como o "General Ingls", estava com o exrcito
russo.
Sir Robert tinha a reputao de expert em assuntos de guerra. Muitos
militares conheciam seus livros, entre eles Napoleo.
Lorde Cathcart disse ao duque que sir Robert estava agora no front, e que
provavelmente enviaria um relatrio do que estava acontecendo.
- O senhor entender que estes relatrios so muito mais verdadeiros do
que os que os russos enviam para enganar o czar.
- Estou bastante aliviado em saber disso, senhor. E j que a mensagem
est para chegar a qualquer momento, gostaria de esperar.
- com muito prazer.
O mensageiro chegou tarde da noite, logo depois que o duque e o
embaixador terminaram de jantar.
Lorde Cathcart foi o primeiro a ler o despacho vindo do front. Quando
acabou, deu um suspiro de alvio e passou o documento a Blake.
Robert Wilson comunicava que o general Kutuzov tinha decidido avanar com
suas tropas e combater os franceses, antes que chegassem a Moscou.
"Este  o objetivo de Bonaparte. No h dvida de que devemos impedi-lo
de alcan-lo" - escrevera ele.
Isto era tudo. O duque, ento, dirigiu-se ao embaixador:
- Eu sabia que o pnico em So Petersburgo, era desnecessrio.
- Eu tambm. Preciso levar as notcias ao czar imediatamente. Agradeceria
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se o senhor pudesse passar a informao a quantos membros do
governo for possvel.
- Certamente, senhor.
No era uma tarefa fcil. Entretanto, depois de quase trs horas, o duque
e o embaixador haviam conseguido acalmar os nimos, evitando assim que
muita gente importante deixasse a cidade.
Depois disso, bastante cansado, Blake se retirou para seus aposentos,
esperando que, naquela noite, Katharina no exigisse sua ateno.
Durante o dia, no teve tempo para pensar no modo estranho como reagiu,
quando fora a seu quarto, na noite anterior. Estava muito bonita, usando
um novo neglig, mas ele no se sentiu atrado. Fisicamente, era bastante
desejvel, divertida e excitante; mas, de repente, seus sentimentos em
relao a ela mudaram, e sentiu que no poderia ser seu amante, mesmo que
quisesse.
Por esta razo, no se despiu ao chegar ao quarto. Simplesmente tirou o
casaco e afroxou a gravata. Quando ela apareceu, estava sentado na
poltrona.
Antes que pudesse perguntar por que ele no estava na cama, o duque
disse:
- Preciso escrever alguns despachos urgentes, Katharina, Acredito que
ficarei ocupado at as primeiras horas da manh.
Ela sorriu.
- Ento, ficarei aqui tambm. Voc sabe que quero l-los.
- Infelizmente, so codificados, e apesar de seus compatriotas terem
tentado decifr-los, acho que ainda no conseguiram.
-  verdade. Mais uma razo, meu querido Blake, para voc traduzi-los
para mim.
- Como pode pensar que eu v cometer tal traio? Nunca lhe pedi para me
mostrar seus relatrios confidenciais.
- Voc pode v-los, se quiser. Mas posso lhe dizer mais facilmente o que
penso de voc como... homem.
A ltima palavra soou como uma carcia. O duque apressou-se em responder:
- V para a cama, Katharina, e deixe-me trabalhar.
66
- Como voc pode ser no mau? - ela perguntou, indo ao seu encontro.
Antes que pudesse evitar, a mulher o abraou, pressionando os lbios no
ombro dele. Podia senti-los, macios e ao mesmo tempo dominadores, atravs
do pano fino da camisa.
Entretanto, quando o tocou, novamente teve certeza de que Katharina no
tinha mais nenhum poder sobre ele.
- Como isso pode ter acontecido? - perguntou-se.
Quando ela o deixou, foi at a janela e afastou as cortinas para respirar
o ar quente da noite.
De repente, comeou a ouvir a msica de Zia e percebeu que uma enorme
barreira, no apenas fsica, havia se erguido entre ele e Katharina.
Aquela melodia que lhe provocava to estranhas sensaes tinha feito com
que se lembrasse de que possua uma alma, um corao, e que s uma mulher
no mundo lhe interessava.
Ao levantar-se, na manh seguinte, o duque percebeu que o palcio voltara
 rotina, como se o caos da noite anterior nunca tivesse acontecido.
O czar estava de excelente humor, certo de que Deus ajudaria Kutuzov a
evitar que os franceses chegassem a Moscou.
Enquanto ouvia Alexandre falar, um pensamento lhe veio  mente. Logo que
foi possvel, deixou o imperador e dirigiu-se ao palcio Ysevolsov.
Pensou que seria educado avisar a princesa sobre os falsos rumores de que
Napoleo estaria marchando para So Petersburgo. Mas sabia que o
verdadeiro motivo de sua ida ao palcio era ver Zia novamente. Tinha
sonhado a noite toda com ela.
Chegando ao palcio, foi imediatamente conduzido  presena de Sonya. Ela
escrevia, sentada  sua escrivaninha.
- Blake! Estou to feliz em v-lo! Tenho certeza de que voc poder
responder a muitas perguntas que tenho para lhe fazer.
- Espero que j saiba que os rumores de ontem foram obra do escandaloso
conde Povolsky.
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- Eu devia ter adivinhado que Felix estava por trs disso - disse ela,
rindo. - Felizmente, um amigo nos avisou ontem  noite, depois de falar
com lorde Cathcart, que no havia razo para tanto pnico. Agora, vamos
tomar alguma coisa. O que voc prefere: ch ou caf?
- Caf, por favor.
A princesa tocou uma campainha de ouro e pediu o caf ao criado. O duque
disse ento:
- Espero que Zia Vallon no tenha ficado transtornada com os boatos. Ela
j estava bastante preocupada com o destino do pai em Moscou.
- Pierre Vallon  francs. Depois dos acontecimentos de ontem  noite,
ser muito difcil que qualquer um de ns no encare os franceses como
nossos implacveis inimigos.
O duque olhou para ela, com surpresa.
- Certamente voc no est incluindo Vallon e sua filha.
- Receio que, se meu marido pode ser morto a qualquer momento por uma
bala francesa e nosso pas invadido, qualquer cidado francs, no
importa quem, seja considerado inimigo.
- Posso falar com Zia? Acho que ela deve estar bastante aflita com sua
atitude.
- No h razo para se preocupar. Afinal, ela no significa nada para
voc.
- Fiquei muito impressionado com seu talento. Dana muito bem e  tambm
excelente pianista.
Ele fez questo de dizer a ltima frase, pois sabia que os criados haviam
informado a princesa sobre sua visita ao palcio no dia anterior.
- Concordo. Mas sugiro que conversemos sobre outras coisas, pois no
tenho a menor inteno, caro Blake, de discutir com voc por causa de uma
moa sem importncia, que apenas ensinava francs  minha filha.
- Ns certamente no discutiremos. Porm, eu gostaria de falar com Zia.
Tenho certeza de que no me impedir.
A princesa fez uma pausa, antes de responder:
- To persistente? Devo dizer, Blake, que voc me surpreende.
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Nunca pensei que uma moa to jovem poderia lhe interessar. Mas, nesse
caso, por que no minha pequena Tnia?
- J lhe disse que Tnia certamente agradaria a meu irmo. Eu lhe
oferecerei um baile em Welminster House, quando voc a levar a Lon dres.
Isso  uma promessa.
-  maravilhoso de sua parte, Blake. Sei o quanto isto significar para
Tnia, como uma "entre" ao "beau monde".
Ela riu e levou os dedos aos lbios.
- Veja s, estou falando francs depois de ter jurado ontem que nenhuma
palavra francesa sairia jamais de minha boca! Mas de que outra maneira
posso descrever o resplandecente e exclusivo crculo do qual voc 
figura proeminente?
-  muito lisonjeira, Sonya. Mas ainda desejo falar com Zia. A princesa
olhou firmemente para o duque e ele teve a impresso de
que ela o desafiava com o olhar. Depois, disse, sorrindo:
- Infelizmente, isso no  possvel.
- Por qu?
- Porque Zia partiu esta manh para Moscou.
- Quer dizer que ela foi mandada embora?
- Eu a mandei de volta para o pai.
- Por qu?
- Porque  francesa e achei que estaria mais segura l. Aqui, os nimos
esto muito exaltados contra os franceses.
- Voc realmente pensou que Moscou seria mais seguro? A qualquer momento
Napoleo pode chegar l.
- No  da sua conta, Blake, o que fao em minha casa ou as decises que
tomo com relao a um empregado.
O duque ps-se de p.
- Voc j vai? - perguntou a princesa, com um qu de preocupao na voz.
- Sim. Adeus, Sonya - disse ele, beijando-lhe a mo e deixando a sala.
- Blake! - gritou ela, antes que a porta se fechasse atrs do duque, mas
ele fez que no a ouviu.
69
Blake voltou ao palcio e ordenou ao lacaio que fizesse suas malas.
Depois, dirigiu-se aos aposentos do czar.
Encontrou Alexandre ocupado com alguns estadistas. Logo que a reunio
acabou, foi recebido pelo imperador.
- Qual  o problema, Welminster? Sei que voc no pediria para me ver com
urgncia, se o assunto no fosse de grande importncia.
-  importante para mim, senhor. Acho que depois da confuso da noite
passada, eu devo, no interesse de meu pas e talvez do seu tambm, tentar
imediatamente fazer contatos com sir Robert Wilson.
- Voc se ajuntaria ao meu exrcito?
- Terei enorme prazer em que encontrar com o general Kutuzov e ver com
meus prprios olhos o que est acontecendo. Acho que depois dos
acontecimentos de ontem  noite, devamos ter mais cuidado ao receber
despachos, no importa de onde venham. Se o senhor no se importar,
gostaria de mandar minhas prprias observaes.
- Por favor, faa isso. Sabe que confio em voc, Welminster, e ficarei
sempre agradecido por sua ajuda, ontem  noite
Ao deixar os aposentos imperiais, o duque dirigiu-se a seu quarto e viu
que estava tudo pronto para que partisse imediatamente.
Escreveu uma breve nota para o embaixador britnico e outra para
Katharina.
Ento, quase como um garotinho apressado para ir para casa nas frias
escolares, desceu correndo as escadas de mrmore e entrou na drotski que
o esperava.
Ao partir, sentiu que faria uma viagem que talvez mudasse seu destino.
A carruagem de Zia era puxada por quatro cavalos e ela sabia que o
prncipe Ysevolsov, assim como muitos outros nobres, mantinha seus
animais em vrios pontos de parada entre So Petersburgo e Moscou.
Na velocidade em que iam, certamente estaria em Moscou dentro de seis
dias, no mximo. Seria um alvio estar novamente com o pai.
Poderia ser que ele se zangasse por ela ter vindo, no s por causa do
perigo iminente dos franceses, mas tambm pelo gro-duque Boris.
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Este, tornara-lhe a vida intolervel em Moscou, at que o pai a
convencera a ir para So Petersburgo.
Como o gro-duque no era bem-vindo  casa de Vallon, ficava longas
horas parado junto  porta, impedindo assim que Zia sasse.
Ela se recusava a falar com ele, e seus presentes eram imediatamente
devolvidos pelos criados.
Zia tinha muito medo de que o gro-duque se vingasse em seu pai,
pois Pierre Vallon ria de suas ameaas, o que nenhum russo ousaria fazer.
Receava as reaes de Boris e ao mesmo tempo pedia a Deus que os
homens no front mostrassem essa determinao e fora contra o exrcito
de Napoleo. Apesar de ser meio-russa e meio-francesa, no podia negar
que tinha preferncia pela terra de sua me.
Os franceses no tinham o direito de invadir a Rssia, um pas que
at pouco tempo era seu aliado. Zia soube que o czar mandara uma
mensagem a Bonaparte, dizendo que ainda era tempo para fazer a paz,
se Napoleo se retirasse com seu exrcito.
- Nem Deus pode desfazer o que j foi feito - respondera o imperador
francs.
A isso, o czar declarou:
- Pelo menos, agora, a Europa ficar sabendo que no fomos ns que
comeamos essa matana.
Sem se importar com quem havia comeado aquela terrvel guerra, Zia
apenas rezava para que nenhum de seus entes queridos fosse ferido. E
entre eles, inclua o duque.
Quando ele deixou a Sala de Msica no palcio Ysevolsov, uma parte de si
mesma tinha ido com ele. Agora, estavam separados e tinha o triste
pressentimento de que nunca mais o veria.
Ele entrara em sua vida to de repente, mas quando seus olhos se
encontraram, parecia que j se conheciam h sculos. Zia no tentou
compreender o que acontecera. Sabia que um sentimento novo se apoderara
dela e que, agora, sua msica tinha um significado especial.
Mas estava deixando o duque em So Petersburgo e talvez ele nunca
soubesse por que tinha partido. Talvez vrios dias se passassem, antes
que descobrisse sua viagem.
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Naquele momento, compreendia perfeitamente por que a me fugira com
Pierre Vallon, apesar de ser uma Strovolsky. Nada mais importava, a no
ser o amor. Entretanto, a posio de sua me era muito diferente: Natasha
amava um homem que era considerado inferior a ela, enquanto Zia amava um
homem que lhe era infinitamente superior.
- Preciso esquec-lo!
Mas sabia que seria impossvel. Nunca o esqueceria...
E a viagem continuava. Paravam somente para comer e trocar de cavalos.
Viajavam durante o dia e  noite tambm, pois Zia no podia se hospedar
sozinha numa taverna  beira da estrada. Os criados que a escoltavam
paravam por uma ou duas horas e dormiam sobre a grama ainda morna do sol
do dia.
Ento, num entardecer, ouviram sons de tiros  distncia. Tropas russas
se movimentavam pelas redondezas, preparando-se para contraatacar.
Estavam perto de Borodino, e Moscou no ficava longe. Talvez no dia
seguinte mesmo pudesse estar com o pai. Apenas esperava que ele no
tivesse deixado a cidade. Pelas suas cartas, demonstrava estar tranquilo,
e certamente s partiria se sua orquestra fosse com ele.
Quando amanhecia e eles retomavam a viagem, ouviram-se canhes, bem
distantes, ao sul. A batalha, que todos em So Petersburgo estavam
esperando, comeara.
Zia sentia-se ameaada pelos dois lados: os russos, porque era francesa,
e os franceses, porque era russa.
Rezou pela prpria segurana e tambm pela do duque, apesar de ter
certeza de que ele no corria perigo em So Petersburgo.
Finalmente, as torres das catedrais de Moscou comearam a aparecer.
- Estou em casa!
Ainda podia ouvir ao longe os tiros dos canhes e Zia pensou nos homens
que l estavam lutando e morrendo.
Mas agora estavam em Moscou e ela notou as ruas cheias de gente tensa com
o perigo da batalha iminente.
A carruagem seguiu ao longo do rio e passou pelo Kremlin. Depois, entrou
numa rua onde havia muitas casas de pedra.
Sua me sempre desejara viver numa dessas casas. Por isso, Pierre
72
Vallon satisfez o desejo de sua adorada esposa, comprando uma, num lugar
tranquilo, no muito longe do centro da cidade. Natasha Vallon ficara
extremamente feliz:
- H um jardim, onde eu e Zia podemos nos sentar sob as rvores! E no
vero, podemos tomar aqui nosso caf da manh, querido!
Aquela casa tinha sido um osis de paz e felicidade, onde Pierre podia
escapar de tudo, mesmo de seus admiradores que o perseguiam sem cessar.
S o gro-duque quebrara esta paz. Mas naquele momento no havia o que
temer. Assim que a carruagem parou, Zia saltou e bateu na porta.
A governanta veio abrir.
- Mademoiselle Zia!
- Estou de volta, Maria! Papai est aqui?
- No jardim, mademoiselle.
Seu pai estava sentado  sombra de uma rvore, lendo algumas partituras.
Talvez, sua ltima composio. Zia deteve-se por um momento, observando-
o. Podia algum homem ser mais atraente? Seu corao respondeu: sim, h
um...
Ento, com um gritinho que assustou Pierre Vallon, ela abriu os braos e
correu para ele.
- Papai! Papai! Estou em casa!
Viu o olhar surpreso dele, e imediatamente seus braos a envolveram num
abrao apertado.
- Zia, minha querida! Por que voc est de volta? Como pde fazer a
loucura de voltar numa hora destas?
73

CAPTULO v

- As tropas esto deixando a cidade, senhor - disse Jacques, enquanto
servia o almoo a Zia e ao pai.
- Parece que todos j partiram - respondeu Pierre Vallon. - O governador
proibiu as pessoas de deixarem a cidade, inclusive prometeu castigar os
que assim fizessem, mas ningum lhe deu ouvidos.
- Mas tenho certeza de que o exrcito russo vai deter os franceses disse
Zia. - Ouvi tiros logo aps o amanhecer, mais ou menos s seis horas.
No posso nem pensar em quantos homens foram mortos...
- No se pode ter uma guerra sem mortos. S rezo para que esta batalha
seja decisiva e tudo acabe logo, de uma maneira ou de outra.
Apesar de falar como se no lhe importasse quem venceria, Zia sabia que
o pai considerava seus compatriotas os agressores.
Napoleo j tinha conseguido tantas vitrias, por que desejaria mais?
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Foi o que pensou. Por que queria dominar a Rssia, assim como o resto da
Europa?
- Quais so as ltimas notcias, Jacques?
- Dizem que o general Kutuzov defender Moscou at a ltima gota de seu
sangue!
- Acho que  isto que ele est fazendo no momento - disse Vallon, ouvindo
os canhes ao longe.
- Estamos seguros... aqui? - perguntou Zia, com um leve tremor
na voz.
- Acredito que estaremos a salvo, qualquer que seja o lado vitorioso.
Entretanto, preferia que voc no tivesse deixado So Petersburgo.
Para no mago-lo, Zia no lhe contou que a princesa literalmente a
mandara embora do palcio.
- Se h perigo, quero estar com voc, e sei que  aqui que mame gostaria
que eu estivesse.
O pai sorriu, quando ela se referiu  me, e Zia notou a tristeza em
seus olhos. Depois, ele se levantou e foi at a janela para ver o jardim
l fora.
- Precisamos decidir se devemos ficar ou partir.
- Se partirmos, para onde iremos, pai?
- Este  o problema. O que voc acha, Jacques?
Jacques j trabalhava para Vallon h quase dez anos. Por isso, no era
mais considerado um criado. Era normal que Pierre discutisse com ele seus
planos.
- Acho que ser difcil conseguir comida, se todos os comerciantes
deixarem a cidade - disse Zia.
- Temos um bom suprimento, mademoiselle.
No duvidava disso. Se dependesse de Jacques, seu pai jamais passaria
fome.
- Em uma coisa eu devo insistir - disse Vallon, num tom autoritrio. -
Voc no pode, em hiptese alguma, sair de casa.
- Est falando srio, papai?
- Claro! - disse Pierre Vallon, dirigindo depois um olhar para Jacques.
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Os dois homens sabiam que uma cidade quase vazia seria uma tentao para
os soldados, quanto mais para os franceses que estavam h tanto tempo
longe das famlias. Haveria muitos saques, e qualquer mulher seria um
chamariz para homens saudosos de suas esposas e namoradas.
- Voc deve ficar em casa - repetiu Vallon, saindo da sala.
- No agiu certo em voltar, mademoiselle - disse Jacques. - Isso
preocupar o patro e ele no trabalhar bem.
- Eu tive que vir, Jacques. Por favor, no diga nada a papai, mas o povo
em So Petersburgo pensava que Napoleo marchava em direo  cidade. De
repente, todos comearam a odiar os franceses. Por isso, a princesa quis
ver-se livre de mim.
- C'est la guerre, mademoiselle, e, na guerra, tudo pode acontecer. Zia
foi at a janela. Ainda se ouvia o som dos canhes, apesar de
estarem bem distantes. Quase podia ouvir tambm o lamento dos feridos e
sentir o cheiro de sangue e plvora. Nunca tinha visto uma batalha, mas
imaginava o quanto deveria ser horrvel.
De repente, s quatro horas da tarde, tudo silenciou, e ela teve certeza
de que o combate terminara. Agora, a questo era: quem vencera?
Estava apreensiva, tensa e amedrontada. Saiu correndo  procura de
Jacques e o encontrou na cozinha, polindo uma pea de prata.
- Os tiros cessaram! A batalha est acabada! Oh, por favor, Jacques,
descubra o que aconteceu!
- O patro logo voltar para casa.
- Ele est com a orquestra e no posso esperar at que volte. Por favor,
Jacques, descubra se algum sabe quem venceu!
- No gosto de deixar duas mulheres sozinhas em casa, mas para agrad-la,
mademoiselle, verei o que posso descobrir. Tranque a porta depois que eu
sair e no abra para ningum, a no ser para o patro ou para mim.
- Sim... naturalmente.
Depois, foi conversar com Maria, mas era muito difcil deixar de pensar
na batalha e no que estaria acontecendo.
Passaram-se quase duas horas, at que Jacques voltasse. Assim que
77
ouviu baterem, Zia desceu as escadas correndo, espiou pela janela e o
viu l fora.
Tirou as trancas, abriu a porta e ele entrou no hall. Sorria. Sem que
precisasse falar, percebeu que trazia boas notcias.
- O que aconteceu? O que descobriu?
- Dizem que foi uma grande vitria, mademoiselle.
- Para os russos?
- Naturalmente! Sempre disseram que o general Kutuzov impediria Napoleo
de chegar a Moscou.
- Ento, no precisamos mais nos preocupar - disse Zia, alegremente, e
subiu correndo para contar  Maria.
Quando o pai voltou, no parecia to alegre como esperava que estivesse.
- Houve muitas perdas. Alguns dos feridos esto sendo trazidos para a
cidade e no h praticamente ningum para atend-los.
- Mas deve haver algum, papai!
- S os pobres e desabrigados esto nas ruas. Voc sabe quantos da minha
orquestra vieram ao ensaio, hoje  tarde? Seis! A orquestra est acabada.
No me querem mais!
- Oh, papai! - disse Zia, abraando-o. - Voc sempre ser querido. Se
no na Rssia, pelo menos em uma dzia de outros pases. Voc sabe disto!
- Eles estavam indo to bem! E por serem compatriotas de sua me, de
alguma maneira me faziam sentir mais prximo dela.
Sentindo a dor em sua voz, Zia beijou-o.
- Onde quer que voc esteja, papai, eu sei que mame estar com voc.
Vallon apertou os braos em torno da filha, agradecido. Era exatamente o
que queria ouvir. Depois, foi para o estdio e fechou a porta. Zia
procurou Jacques.
- Jacques, acho que est na hora de deixarmos a Rssia e de papai
organizar uma nova orquestra, em algum outro lugar.
- Concordo, mademoiselle. Mas precisamos decidir para onde iremos e
tambm convencer seu pai a partir.
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- No ser fcil, mas conversarei com ele, depois do jantar.
- Faa isso, mademoiselle. Vou preparar um jantar especial, o prato que
ele mais gosta.
Jacques era um excelente cozinheiro e, como todo bom francs, Pierre
Vallon apreciava uma comida bem preparada.
Agora, tudo que Zia precisava fazer era convencer o pai de que seu
talento seria mais apreciado fora da Rssia.
De repente, sentiu vontade de ver o duque mais uma vez. Ser que ele
sabia que ela deixara So Petersburgo? Talvez tivesse voltado ao palcio
para ouvi-la tocar novamente...
- Ele compreendeu a msica de papai.
A lembrana do momento que suas mos se tocaram e uma corrente magntica
se formou entre eles era inesquecvel.
Subiu vagarosamente as escadas e foi para o quarto, trocar o vestido para
o jantar. Seu pai sempre gostava de v-la bem vestida. Apreciava as
mulheres bonitas e elegantes.
Escolheu o vestido favorito do pai e ficou imaginando se o duque tambm
apreciaria, se a visse com ele. Depois, riu da ideia de que ele notaria
alguma coisa que ela vestisse. Era bvio, como lhe disse a princesa, que
vivia rodeado de mulheres bonitas, no apenas em So Petersburgo, mas
principalmente em Londres.
- Ele nunca se lembrar de mim. Por que o faria?
Era to doloroso pensar em sua prpria insignificncia...
Zia estava pronta para o jantar e dando os ltimos retoques no cabelo,
quando ouviu uma forte batida na porta de entrada. Assustou-se e
imediatamente pensou no gro-duque Boris. Aquela era a maneira como ele
batia  sua porta, dia aps dia.
- Certamente ele ainda no sabe que estou aqui - disse a si mesma.
Depois, lembrou-se de que era bem pouco provvel que o gro-duque
tivesse ficado em Moscou; a maioria de seus amigos havia partido.
Bateram mais uma vez e Zia se levantou da penteadeira e foi at o topo
da escada. No hall, viu Jacques apressando-se em abrir a porta.
Ele falou em russo com algum, mas no pde ouvir o que diziam.
79
Depois, Jacques olhou para cima, como se soubesse que ela estaria l, e
gritou:
- Mademoiselle, por favor, venha imediatamente!
O duque viajava numa carruagem puxada por seis cavalos, com um pequeno
grupo de soldados para escolt-lo.
Como o prncipe Ysevolsov e todos os outros nobres, o czar possua
estbulos para seus cavalos ao longo da estrada entre So Petersburgo e
Moscou, mas os de Sua Majestade Imperial eram mais prximos uns dos
outros. Isso significava que, com uma frequente troca de cavalos, o duque
poderia completar sua jornada em menos tempo. Uma vez, a imperatriz
Catarina tinha ido a Moscou em apenas trs dias, mas para ela os cavalos
eram trocados a cada hora.
O duque estava acostumado a viajar e o balano da carruagem no o
perturbava. Dormia algumas horas e o resto do tempo pensava em Zia. Ela
sempre estava em seus pensamentos, mesmo quando queria se concentrar na
situao que encontraria, quando chegasse a Borodino.
Entretanto, quando l chegou, o barulho das armas j havia cessado.
Sabia, contudo, que uma tremenda batalha havia ocorrido.  medida que se
aproximava, podia ver, ao sul da estrada, o pavoroso espetculo de um
campo de batalha que se perdia no horizonte. Soldados mortos e feridos
cobriam o campo.
Era to horrvel que teve dificuldade em acreditar que no estava tendo
uma viso.
Ao descer da carruagem, o duque viu um grupo de oficiais reunidos numa
pequena elevao  margem da estrada. Por toda a parte havia soldados
mortos e, entre eles, os feridos tentavam desesperadamente fugir para
longe dali.
Felizmente, Blake encontrou o general Kutuzov com os oficiais e
imediatamente se apresentou.
Kutuzov falava em voz baixa e sem exaltao, mas era evidente que estava
convencido de ter alcanado uma vitria notvel.
O duque aguardou, enquanto o general ditava uma mensagem para o czar, a
ser entregue por um jovem oficial que esperava para lev-la a So
Petersburgo. L, seria recebida ao som dos sinos das igrejas, fogos de
artifcio e lampies s margens do Neva.
O duque estava certo de que Kutuzov seria recompensado com um ttulo de
nobreza, uma grande soma em rublos e, sem dvida, com a insgnia de
marechal.
Pensou novamente em Zia e ficou aliviado, pois agora sabia que ela
estaria a salvo em Moscou. Se falasse logo com os oficiais, poderia v-la
ainda naquela noite. Gostava da ideia de ser a primeira pessoa a lhe dar
as boas notcias.
Cumprimentou o general Kutuzov e seu pessoal e foi  procura de sir
Robert Wilson.
Ele no estava muito longe e mostrou alegria ao ver o duque:
- Disseram que o senhor estava em So Petersburgo e eu me perguntava
quando o veria no front.
-  bvio que cheguei muito tarde para prestar qualquer ajuda.
- Espero que o general no esteja enviando uma mensagem ao czar, falando
de uma esmagadora vitria.
- Foi exatamente isso o que ele acabou de fazer. - O duque respondeu.
Mas, notando o ar de preocupao de sir Robert, perguntou:
- Est me dizendo que tal suposio  prematura?
- Acredito que sim.
- Por qu?
- Porque as perdas da batalha foram imensas.
- Quantos vocs perderam?
-  absolutamente impossvel, no momento, calcular o nmero de mortos.
Mas, numa estimativa, o exrcito russo perdeu quarenta mil homens.
- Impossvel!
- Posso estar errado. Deus queira que eu esteja! Mas  s voc olhar para
o campo de batalha para ver a devastao. Os canhes atiraram desde as
seis horas da manh.
- Ento, foram dez horas no total.
- Exatamente.
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- E quais as perdas dos franceses?
- Isso no sabemos. Mas tambm foram muitas, milhares.
Sir Robert nada mais tinha a lhe dizer, e o duque voltou para a estrada,
onde a carruagem o esperava, em meio a homens sendo colocados em macas,
soldados reagrupando-se e cavalos puxando canhes.
Ia embarcar e ordenar ao cocheiro para lev-lo a Moscou, quando viu outro
veculo se aproximando, cujo cocheiro reconheceu. Era a carruagem do
prncipe Ysevolsov, certamente aquela que havia levado Zia a Moscou. Fez
um sinal para o cocheiro parar.
- Vocs levaram a srta. Zia Vallon para a casa do pai, em Moscou?
- Sim, Excelncia.
- Pode me dar o endereo?
O homem ia responder, quando dois cavalos puxando um canho obrigaram-no
a se afastar. Vrios soldados, que se ocupavam disso, davam ordens, todos
ao mesmo tempo, confusos e exaustos. As rodas encalharam e um oficial
aproximou-se, esbravejando:
- O que  que esto fazendo? Onde vo com este canho?
- Recebemos ordens para mov-lo, senhor - disse um dos soldados. - Um
projtil ficou preso na culatra. No podemos atirar com ele.
- Como, no podem atirar?
- Est emperrado, senhor.
- Pois ento disparem-no! No podemos tirar os canhes de suas posies,
pois podemos ser atacados novamente.
Olhando para o mar de corpos entre as posies russa e francesa, o duque
achava que isso seria pouco provvel. Mas o oficial continuou:
- Atirem agora! Atirem na direo do inimigo! Se matarem mais alguns
daqueles miserveis invasores, melhor!
Um dos homens carregou o canho, dizendo:
- J tentamos isso uma dzia de vezes, senhor.
- Ento, tentem novamente!
Obedeceram. Houve uma exploso e, para o duque que assistia, o mundo
pareceu estar em chamas...
Zia chegou at a porta de entrada e viu dois dos criados que a haviam
trazido a Moscou. Ficou surpresa, pois j deveriam estar voltando para
casa.
- Boa noite! Alguma coisa errada?
- Acontece que no sabemos o que fazer com Sua Excelncia, mademoiselle -
disse um deles, num francs hesitante.
Zia no entendeu e Jacques explicou:
- Eles disseram, mademoiselle, que um cavalheiro lhes dizia que vinha v-
la, quando um canho explodiu acidentalmente. Trs soldados morreram, um
dos criados de Sua Alteza e seu cavalo, e o lacaio do cavalheiro. Parece
que o cavalheiro est gravemente ferido.
Zia sentiu o corao apertado e dificuldade para respirar.
- Que cavalheiro? - perguntou, mas j sabia a resposta.
Saiu correndo em direo  carruagem. Notou que um dos lados tinha sido
seriamente atingido pelos fragmentos da exploso. Quando a porta foi
aberta, viu o duque deitado no banco de trs, coberto de sangue.
- A casa de Sua Alteza aqui em Moscou est fechada e todos j partiram.
No sabamos para onde lev-lo.
- Fizeram bem em traz-lo para c. Depois, dirigindo-se a Jacques:
- Diga-lhes para tomarem muito cuidado ao mov-lo.
S depois que os homens carregaram o duque para dentro da casa, e o
deitaram na cama do nico quarto desocupado, Zia teve coragem de
perguntar:
- Ele no est... morto?
No era de estranhar que pensasse assim, pois o rosto do duque estava
branco como cera, seus olhos fechados, seu corpo flcido. Parecia que a
vida o havia deixado.
- Ele ainda no est morto, mademoiselle, e se for a vontade de Deus,
vamos mant-lo vivo - respondeu Maria.
Imediatamente, tomou conta de tudo, da maneira prtica de uma mulher
francesa acostumada com situaes difceis.
Os criados do prncipe Ysevolsov foram procurar um mdico. Jacques deu-
lhes vrios endereos, no caso de alguns mdicos terem deixado Moscou.
82
Zia foi para a cozinha ferver gua, enquanto Maria e Jacques despiam o
duque para ver a extenso dos ferimentos.
Quando voltou ao quarto com a chaleira, uma bacia e vrias toalhas, Blake
estava coberto com um lenol e ela o achou ainda mais plido e sem vida
do que antes.
Agora seu pai estava l e a calma com que aceitou a situao era mais
reconfortante do que qualquer coisa que pudesse dizer.
- Logo um mdico estar aqui. Nem todos deixaram Moscou. Na verdade,
esto levando os feridos para as casas vazias daqueles que abandonaram a
cidade.
Enquanto falava, bateram  porta.
J passava das onze horas, quando Zia e o pai se sentaram na sala de
jantar para uma rpida refeio.
- Voc conheceu o duque em So Petersburgo? - perguntou Pierre Vallon.
- Sim. Ele foi visitar a princesa, quando eu e Tnia danvamos no
pequeno teatro.
Vallon olhou para a filha. Estava muito prximo dela para no notar que
suas suspeitas tinham fundamento.
- Ele significa alguma coisa para voc? - perguntou, calmamente.
- Foi muito estranho, papai, mas no momento em que o vi... sabia que ele
era diferente de qualquer outro homem que conheci.
- De que maneira?
- Por uma razo: ele compreendeu sua msica. Quando toquei para ele...
ele viu o que ns tambm vimos.
No havia necessidade de dizer mais nada. Pierre Vallon compreendia muito
mais do que as palavras podiam expressar.
- Voc tem certeza?
- Sim, papai. Voc sabe que eu no poderia me enganar com uma coisa
destas. Alm disso, quando foi ao palcio, no dia seguinte, e me
encontrou sozinha, perguntou-me o que eu havia... feito para ele. Disse
que nunca em sua vida se sentira assim.
-  extraordinrio!
84
- Que ele se sentisse daquela maneira?
- Sim. Conheci o duque em Londres e depois o encontrei em Viena. Por tudo
que ouvi sobre ele, e o povo fala muito a seu respeito, no podia
imaginar que era como voc diz que .
Zia sorriu.
- Sabe que eu nunca poderia estar errada, papai. Ningum... ningum, a
no ser voc, pode sentir a nossa msica e compreend-la.
- Voc sabe, minha querida, que eu nunca duvidaria de alguma coisa que
voc me contasse, ou interferiria em uma amizade sua. Mas, se sua me
estivesse viva, tenho certeza de que ela lhe explicaria que o duque de
Welminster no pode significar nada em sua vida.
- J pensei nisso, papai.
- Seria melhor que eu arranjasse para que ele fosse removido para um
hospital, amanh. Deve haver algum, onde ele possa ser bem atendido.
Talvez, bem melhor do que aqui em casa.
Zia ficou em silncio, por um momento.
- De certa forma, papai, eu me sinto responsvel pelo que aconteceu. Os
criados de Sua Alteza disseram que o duque perguntava meu endereo no
momento da exploso.
O pai no respondeu, mas sabia que ele estava pensando que o duque no
tinha o direito de se intrometer na vida particular deles, nem de
perseguir sua filha, que no pertencia ao seu mundo social.
Zia parou de comer.
- Quando voc se apaixonou por mame, pde escolher se iria amla ou no?
Pierre Vallon olhou para a filha, consternado.
- Quer dizer que ama este homem?
- Sim... papai.
- Como pode estar to certa? Voc o viu duas, talvez trs vezes. Zia
sorriu, seu rosto se iluminou.
- Sinceramente, papai! Como pode me fazer esta pergunta e esperar que eu
responda?
- No meu caso, foi diferente.
85
- Foi? Mame disse que, no momento em que o viu, apaixonou-se por voc e
sentiu que era correspondida.
- O que eu podia fazer? Ela era to adorvel, to especial. E, minha
querida, voc  muito parecida com ela.
- No s nas minhas feies, nos meus olhos, mas nas coisas que sinto.
Deu um risinho e o pai sorriu tambm. - Como espera que eu seja
diferente, se sou sua filha? Eu vejo o que voc v, quando toca; ouo o
que voc ouve e tento me expressar na msica como voc faz. Mas tambm
sou filha de mame. Como sabe, papai, meu corao nunca tinha sido
tocado, at esse momento.  por isso que o gro-duque e vrias outras
pessoas me chamam de "Donzela de Gelo". Mas, no momento em que toquei a
mo de Blake, o gelo se derreteu. E me apaixonei.
- Voc sabe que esta histria no pode ter um final feliz? Sua voz estava
carregada de dor, como se j sofresse por ela.
- Sei disso. Mas no posso me obrigar a no am-lo, apesar de saber que
ele nunca me amar da mesma maneira.
- Arranjarei para que v para um hospital.
- No, papai.
- Nesse caso quem decide sou eu. No quero que voc sofra. Deixlo ficar
aqui seria loucura e no quero nem pensar onde essa loucura terminaria.
Zia sabia que, o que ele estava dizendo, nas entrelinhas, era que o
duque no lhe ofereceria casamento. Suspirou.
- Entendo. Mas o instinto me diz para cuidar do duque, at que esteja
novamente saudvel.
- E o meu instinto me diz para cuidar de voc. Impedi-la de ser muito
mais infeliz do que seria, se lhe dissesse adeus agora. Pense no que
aconteceu como se fosse um sonho, uma fantasia que lhe trouxe algo de
belo, assim como a msica.
Calou-se por um momento. Depois, continuou:
- Se no vir o duque, se o deixarmos em Moscou como penso fazer,
gradualmente o que sente por ele morrer.
Fez um gesto com as mos, para impedi-la de falar.
- Naturalmente, a msica que tocou para ele trar tudo de volta.
86
Sempre sentir uma certa nostalgia do momento em que, pela primeira vez
em sua vida, se apaixonou. Mas haver outros amores, outros momentos,
isso eu lhe prometo!
- Como pode estar to certo? Se, quando deixou o palcio Strovolsky,
mame no tivesse ido em sua companhia, voc a teria esquecido? Seu amor
por mame era por acaso diferente do que eu sinto pelo duque?
O pai no respondeu e ela continuou:
- Voc me ensinou a analisar meus sentimentos. Tambm me ensinou a
distinguir o que  real e verdadeiro daquilo que  falso, e eu sei que o
que sinto agora no  o romance de adolescente ao qual me entreguei
alguns anos atrs. Isto  to real quanto respirar, ouvir e ver.
Suspirou, quando disse:
- Se o duque nunca mais falar comigo, e se eu nunca mais o encontrar,
ainda assim o amarei. Tenho absoluta certeza de que nunca mais sentirei
nada por qualquer outra pessoa.
Fez-se silncio por alguns minutos.
- No sei o que lhe dizer, minha querida.
- Ento, vamos deixar as coisas como esto, por enquanto. Depois,
enfrentaremos o fato de que preciso sair da vida dele.
- Ainda gostaria de procurar um hospital - insistiu Vallon. Prometo no
fazer nada sem consult-la, mas sinto que o duque ficar acamado por mais
tempo do que desejo permanecer em Moscou.
- Pretende partir to depressa?
- Quero ir. Depois da matana que deve ter havido hoje no campo de
batalha, sinto-me desconfortvel por ser francs.
No era s isso, pensou Zia; sua nacionalidade nunca o preocupara antes.
Na verdade, estava seriamente desapontado e magoado por ter sido
abandonado por sua orquestra.
Podia entender que, na hora do medo, eles quisessem tirar suas esposas e
crianas da cidade, que poderia ser invadida a qualquer momento. Agora
voltariam e, se pedissem perdo a seu pai, ele os desculparia, pois no
era do tipo que guardava rancor por muito tempo.
Por outro lado, sabia que ficaria profundamente mais magoado, se
87
aqueles que um dia confiaram nele dissessem: "Afinal de contas,  apenas
um francs. Por que devemos nos preocupar com ele? "
O jantar terminou e Zia, sem pedir licena, subiu para ver o duque.
Maria estava com ele. Quando Zia apareceu na porta, saiu do quarto e
veio at o corredor.
- Como est ele?
-  difcil dizer, mademoiselle. O mdico vai voltar amanh e espera
trazer algum com mais experincia nesse tipo de ferimento. Isto , se
ainda houver algum em Moscou.
- O mdico disse isso?
- Disse que mais pessoas esto deixando a cidade a cada minuto. 
impossvel conseguir medicamentos para os ferimentos.
- No entendo como podem ser to covardes!
- No se preocupe, mademoiselle. Cuidaremos do cavalheiro, de um jeito ou
de outro.  um homem forte e isso contar a seu favor, mais do que
qualquer outra coisa.
- Est me dizendo que sua vida corre perigo? Maria hesitou por um
momento:
- Ele est mal, mas no to mal que no possamos salv-lo com os devidos
cuidados.
Notou a expresso de Zia e tentou acalm-la:
- No fique preocupada. Ele ter muita febre, e no h nada que possamos
fazer a esse respeito. Jacques e eu cuidaremos dele. Pode confiar em ns.
- Eu tambm quero ajudar. Posso no ter tanta experincia quanto voc,
Maria, mas sei que posso ajud-lo e lhe dar um pouco de minha fora.
No esperou pela resposta de Maria; entrou no quarto.
O duque estava deitado, imvel, e novamente Zia pensou, com o corao
apertado, que podia estar morto.
Ento, tocou sua mo e notou que havia algum calor nela.
V-lo assim, to desfalecido e sem vida, era como ver um grande carvalho
cado ao cho.
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com as duas mos envolvendo a dele, sentia como se passasse sua prpria
vida para o corpo do homem que amava.
- Oh, Deus, faa-o bom e forte novamente. Ele precisa viver. No tire a
sua vida... deixe-o viver.
Era uma orao que vinha do fundo de seu corao. Ento, falou em voz
alta:
- Eu o amo... pense em mim... venha para mim... sou sua... e o quero
vivo.
Sentiu que, de alguma maneira, ela o envolvera com seu amor e podia
alcan-lo na escurido e esquecimento em que se encontrava.
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CAPITULO VI

- O cheiro de queimado est pior! - o duque falou baixo.
Zia levantou-se da poltrona em que estava sentada e foi para o lado da
maca, dizendo:
- Pensei que estivesse dormindo.
Ele olhou para ela, notando que a sombra de seu cabelo, contra a luz que
vinha da janela, parecia um halo.
- Voc no respondeu. O cheiro est pior do que antes.
- Acho que as casas de madeira, na outra rua, esto pegando fogo.
- J disse que voc e seu pai devem deixar Moscou imediatamente. Sei que
o mdico pode arranjar algum lugar para mim. No posso mantelos aqui por
mais tempo.
Falava com esforo, mas sua voz era firme. Zia sorriu.
91
- Acha que poderamos abandon-lo ou entreg-lo como prisioneiro aos
franceses?
- Tem que ser assim. Quando o mdico vier novamente, vou pedir que
encontre um lugar para mim.
Zia no respondeu. Pensava nos vinte e cinco mil soldados trazidos para
Moscou, depois da batalha. O governo dissera que no havia acomodaes
adequadas para eles na cidade. Como no podiam ser atendidos, deviam ser
mandados para outra cidade. Mas, uma vez dada a ordem, descobriu-se que
no havia veculos para transport-los.
Ainda era difcil para Zia ou qualquer outra pessoa acreditar que
Moscou, a Cidade Santa da Rssia, tivesse sido evacuada sem que fosse
disparado um s tiro em sua defesa. Os franceses chegaram para encontrar
a cidade praticamente deserta.
Contaram a Pierre Vallon que Napoleo ficou estupefato com as ruas
completamente vazias e as casas e lojas abandonadas. S os muito pobres e
os velhos ficaram, e lotaram as igrejas em busca de segurana.
Depois que os franceses entraram, os soldados, completamente
descontrolados, comearam os saques. Como havia muito vinho, logo ficaram
bbados.
Incndios comearam entre as casas de madeira, e ningum sabia se foram
acidentais ou ateados pelos prprios russos.
Jacques disse a Zia que grande parte da cidade estava em runas e que o
grande incndio piorava, porque os russos, quando partiram, levaram
tambm os carros de bombeiro e mangueiras.
 noite, quando tudo estava quieto, parada  janela, Zia podia ouvir a
distncia o barulho de paredes que caam e gritos dos soldados.
Durante o dia, no se podia escapar do cheiro da fumaa, preta e espessa,
logo acima dos telhados.
Sabia que o pai tinha medo do que poderia acontecer com eles. As notcias
que trazia do centro da cidade, onde os franceses estavam acampados, eram
cada vez mais desencorajadoras.
- Preciso tir-la daqui - disse Pierre Vallon vrias vezes.
- Mesmo que fosse possvel escapar, no poderamos deixar o duque.
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Na noite anterior, quando conversavam sobre o assunto, Pierre Vallon
levantou-se e disse, rspido:
- Empacote tudo o que for necessrio. Zia olhou para o pai, apreensiva.
- O que pretende fazer?
- Pretendo sair, antes que esta casa queime sobre nossas cabeas. Ou,
pior, antes que os soldados arrombem a porta em busca de saques.
Zia sentiu o medo em sua voz; medo por ela.
- Irei com voc, papai, mas temos que levar o duque conosco. Ele no
respondeu.
Naquela manh, ao sair de casa, Pierre beijou-a e disse:
- Mantenha a porta bem fechada e esteja pronta para partir na primeira
oportunidade. Diga para Maria arrumar tudo o que for preciso. Vou levar
Jacques comigo para ajudar a arranjar as coisas.
- com quem vai falar, papai? No teve resposta.
Trancou a porta. Agora, usavam a porta dos fundos, pois Jacques havia
pregado tbuas na da frente, para que parecesse que no havia ningum
em casa.
O empregado disse que os soldados saqueadores estavam sempre to bbados
que no tinham disposio para forar as portas trancadas. Preferiam,
simplesmente, entrar nas casas abandonadas pelos nobres.
Parecia incrvel que, depois de tudo que o general Kutuzov tinha dito a
respeito de defender Moscou at a ltima gota de seu sangue, tivesse
retirado suas tropas e deixado a estrada vazia para Napoleo e os
franceses marcharem sobre a cidade.
O enorme nmero de perdas que os russos sofreram tornou impossvel para
Kutuzov atacar os franceses ou defender a populao.
Quando o duque recobrou a conscincia e estava melhor para poder entender
o que acontecera, compreendeu que sir Robert Wilson estava certo, quando
antecipou o nmero de baixas. Quarenta e trs mil russos foram mortos ou
feridos, e trinta mil franceses.
O relatrio que o Kutuzov despachara para o czar sobre a grande vitria
era um falso triunfo, quando Moscou teve que ser abandonada.
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Talvez, por ser francs, Pierre Vallon compreendeu o desapontamento de
Napoleo ao entrar na capital vazia. Para ele, havia quase um significado
mstico ao pensar em encontrar as quinhentas cpulas, pintadas de cores
brilhantes, esperando por ele. De repente, descobriu que s possua um
monte de runas fumegantes.
- O que o imperador far agora, papai?
- Acho que ele espera que o czar pea um armistcio.
Zia repetiu a conversa ao duque. Depois de pensar um pouco, ele disse:
- Acho que a perda de Moscou ter um efeito dramtico no czar e
no povo.
- O que quer dizer?
- Sinto que a distncia entre os nobres e os camponeses ser diminuda,
pelo menos por enquanto, e que o czar, fortalecido pelo profundo fervor
religioso que possui, recusar negociar.
- O que o deixa to seguro de que isso acontecer? Ele olhou para ela.
- Desde o momento em que a conheci, tomei conhecimento de que eu tinha um
tipo de percepo diferente que nunca usara antes.
Ela deu um pequeno suspiro.
- Sabia que voc o tinha, quando me ouviu tocar e compreendeu o que papai
queria dizer.
- Nem eu mesmo me entendo...
Depois, fechou os olhos, como se estivesse muito fraco para continuar
a conversa.
Nos trs primeiros dias, na casa de Pierre Vallon, esteve muito doente e,
como Maria esperava, com muita febre.
Ela e Jacques o lavavam regularmente com vinagre. Apesar de no admitir
para Zia, houve vezes em que Maria pensou que nada mais poderia ser
feito para salvar a vida de Blake.
Mas ele sobreviveu, e o mdico achava que foi porque era muito forte.
Entretanto, Zia acreditava que foi por causa da energia que ela lhe
transmitia, quando estavam a ss.
- Voc precisa ficar bom - ela lhe dizia, enquanto estava inconsciente.
94
- O mundo precisa de voc. H tanto para ser feito! Volte! Volte
de onde quer que esteja!
Agora, Blake estava bem melhor, mas ainda fraco, e ela pensava se uma
longa viagem no seria demais para ele. Ficar tambm era perigoso.
Napoleo odiava os ingleses. O duque no podia cair nas mos dele.
Blake parecia dormir, quando ela ouviu uma batida na porta dos fundos, o
que indicava que o pai e Jacques estavam de volta. Saiu do quarto, em
silncio, e desceu rapidamente as escadas. Quando chegou  cozinha, viu
que Maria j deixara os dois homens entrarem.
Zia correu para o pai e o abraou, pois sempre que Pierre Vallon saa de
casa no se sabia se voltaria ou no.
- Trago boas notcias!
- O que , papai?
- Obtive de Napoleo, no s permisso para deixar a cidade, mas tambm a
promessa de que teremos algum para nos escoltar, at que estejamos fora
de Moscou.
Zia no disse nada. Apenas esperou, e Pierre Vallon continuou:
- A permisso inclui voc, eu, Maria, Jacques e um membro de minha
orquestra que ficou muito ferido, quando uma casa em chamas desmoronou.
Zia no podia acreditar no que acabara de ouvir e deu um grito de
alegria:
- Oh, papai! Como conseguiu? E como ousou ir at o imperador?
- Pedi para v-lo e ele se lembrou de mim. Falamos sobre a ltima vez que
toquei em Paris. Depois, expliquei a situao em que me encontrava,
porque voc estava comigo. O imperador disse: "Posso entender sua
ansiedade e suponho que devo deix-lo ir, apesar de desejar que fique e
toque para mim". - E eu respondi que esperava fazer isso em dias mais
felizes. O imperador disse tambm que o Teatro da pera, em Paris, est
esperando por mim.
- Foi um belo cumprimento, papai. Mas como conseguiremos sair?
- Jacques escondeu nossas duas carruagens, o que foi bom, pois todos os
veculos da cidade foram com aqueles que partiram antes dos franceses
chegarem.
95
- E cavalos?
- Tambm esto em lugar seguro. Decidi que partiremos ao amanhecer.
Saindo assim to cedo, ser menos provvel que sejamos assaltados nas
ruas.
Enquanto falava, pensava no terrvel espetculo a que assistira, quando
ele e Jacques foram ao Kremlin para ver Napoleo. Em qualquer direo que
olhassem, viam soldados franceses cambaleando para fora das casas,
carregados de dinheiro, jias, botas, roupas de cama e mesa, capas e
casacos de pele.
Viram, tambm, pessoas serem assaltadas; as que resistiram foram
violentamente espancadas.
Souberam que os franceses estavam pilhando as igrejas, e qualquer mulher
que no fosse velha e doente era carregada e levada com eles.
Apesar de Pierre Vallon no ter dito nada, o fogo estava agora bem
prximo do local que escolhera para construir a casa dos sonhos de sua
esposa.
Zia subiu. Encontrou o duque acordado.
- Tem alguma notcia?
- Ns partiremos amanh de manh.
- Ns?
- Papai conseguiu um passe especial do imperador Bonaparte para deixarmos
a cidade. Alguns soldados vo nos escoltar.
- Ele viu o imperador?
- Sim, e Napoleo se lembrava de papai.
Havia um leve sorriso nos lbios de Blake, quando respondeu:
- Quem poderia esquecer Pierre Vallon?
Enquanto falava, Zia pensava se, quando estivesse curado, ele a
esqueceria.
- Para onde iremos? Olhou-o, surpresa.
- Esqueci de perguntar a papai. Mas no  importante, desde que deixemos
Moscou.
- Diga para seu pai ir para Odessa. Conheo o governador e assim ser
fcil conseguirmos um navio para nos levar para casa.
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O duque fechou os olhos novamente, como se falar ainda lhe fosse penoso.
Zia permaneceu ao seu lado: Para nos levar para casa! pensou ela. Queria
ele dizer para a casa dele? Para Inglaterra? Gostaria que ele explicasse,
mas estava com medo de ouvir a resposta.
Naturalmente, o que tentava dizer era que, devido  Inglaterra dominar os
mares, certamente haveria muitos navios ingleses que se sentiriam
honrados em levar ao seu pas algum to importante quanto o duque de
Welminster. Mas ela e o pai eram inimigos, para os ingleses.
Zia foi para o quarto, do outro lado do corredor. Comeou a juntar mais
algumas coisas ao que j estava empacotado. De repente, sentiu que a
nica maneira de expressar o conflito que lhe ia na alma seria com a
msica.
Quando o duque ainda estava inconsciente, pensou que a msica poderia
atingi-lo, onde a voz humana no chegava, e convenceu Jacques a trazer
para seu quarto o piano que, geralmente, ficava no salo.
Havia dois pianos na casa: o preferido do pai estava em seu estdio; o
outro, no qual ela e a me costumavam tocar, era usado para divertir os
amigos que sempre pediam para ouvir uma das composies de Pierre Vallon.
Agora, o piano estava num canto de seu quarto e Zia comeou a tocar a
msica que executara para o duque no dia em que ele fora ao palcio
Ysevolsov.
A melodia levou para longe seu medo do futuro e a fez esquecer por um
momento o fogo l fora, devorando tudo, e a fumaa que subia para o cu.
Foi transportada para um mundo mgico de beleza e felicidade. S quando
parou de tocar, pensou se o duque ainda dormia ou se ouvira a msica.
De repente, ele a chamou. Correu para seu quarto. Quando se aproximou da
cama, ele lhe estendeu a mo, na qual ela imediatamente colocou a sua.
- Voc tocava para mim?
- Sim.
- Lembrei como fiquei assustado na primeira vez que tive certeza das
estranhas sensaes que sua msica despertava em mim.
97
- E... agora?
- Acho que foi o destino que fez com que nos conhecssemos e que tambm
estivssemos aqui, onde a histria est acontecendo. Devemos lembrar
disso durante toda nossa vida.
Quando seus dedos apertaram os dela, Zia no pde pensar em nada mais, a
no ser na delcia daquele contato. O duque devia estar muito doente para
sentir o magnetismo que havia entre eles e que j acontecera antes,
quando suas mos se tocaram pela primeira vez.
Notou que ele a olhava.
- Quando estivermos fora de Moscou, iremos bem devagar. Assim, no ser
muito penoso para voc.
- Sei que voc e Maria cuidaro de mim e estou bastante aliviado com a
esperteza de seu pai. Graas a ela, voc poder escapar de Moscou.
Zia teve o impulso de se ajoelhar ao lado da cama e dizer o quanto o
amava, que estava pronta, se preciso, a sacrificar sua vida por ele.
Soltou sua mo e foi at a janela. Atrs das casas, do outro lado da
praa, o claro do fogo continuava vivo; de vez em quando, podia-se at
ver as chamas, por cima dos telhados.
Zia ouviu o pai subindo as escadas. Logo depois, ele entrou.
- Minha filha j contou as notcias ao senhor?
- Sim. Mas ainda acho que vocs viajariam com mais segurana e muito mais
rpido, se fossem sem mim.
- Pelo contrrio. Pretendo ir para Odessa e, l, vamos precisar de sua
ajuda para chegar at a Frana.
Zia sobressaltou-se. Ento, era para l que ele queria ir: para a casa
deles, na Frana.
- Tenho certeza de que daremos um jeito - respondeu o duque. Pela maneira
como falou, Zia percebeu que estava muito cansado.
- Acho que seria bom se Jacques lhe preparasse algo leve para comer. Voc
deve dormir o mais cedo possvel. Teremos que nos levantar muito cedo,
amanh de manh.
O duque no respondeu. No querendo incomod-lo mais, Zia saiu, 
procura de Jacques.
Os quatro cavalos moviam-se com bastante rapidez e j estavam longe de
Moscou, quando Zia deu um profundo suspiro de alvio. L fora, avistava-
se somente os campos e havia pouca gente na estrada.
- Acho que estamos certos em ir para o sul. Aqui logo estar muito frio -
disse o pai.
-  verdade - concordou Zia. - Muitas vezes faz frio em outubro.
- No ano passado nevou no final de setembro.  melhor que o imperador se
lembre disso.
Zia ficou surpresa ao ver que o pai, ou talvez Jacques, tinha conseguido
nada menos do que oito criados para acompanh-los. No perguntou onde
esses russos estiveram escondidos todo aquele tempo, mas achava que
talvez fosse no mesmo lugar que Jacques arranjara para as carruagens e os
cavalos.
No comeo da viagem notou que o pai estava apreensivo, com medo de que os
soldados escolhidos para escolt-los fossem se apropriar dos cavalos em
nome de seu exrcito que, depois da chacina de Borodino, estava com falta
de montaria. Felizmente, soldados franceses no faziam mais do que
obedecer as ordens que lhes eram dadas. Assim, logo aps o amanhecer,
partiram em direo ao Porto Rogozhskol, na sada oeste da cidade. Desta
maneira, no precisaram passar pelo centro de Moscou, onde a maioria dos
soldados estava alojada.
A travessia foi bastante tensa, pois sempre havia o medo de que um grupo
de soldados bbados resolvesse assaltar as carruagens, ou que as paredes
das casas em chamas cassem sobre eles, pois pelo menos trs quartos das
casas pelas quais passaram estavam em chamas.
Quando alcanaram a ponte sobre o rio, Pierre olhou para trs com tal
expresso de tristeza, que Zia perguntou:
- Que foi que o aborreceu, papai?
- O Grande Teatro estava queimando, ontem  noite.
- Oh, sinto muito! - sabia o quanto isso lhe doa, pois fora l que ele
organizara a orquestra, o grande sonho de sua vida.
- No  de surpreender; foi todo construdo em madeira.
- Estamos comeando um novo captulo de nossas vidas, papai. Tenho o
pressentimento de que este ser muito interessante e vantajoso para voc.
O pai no respondeu e ela no pde deixar de pensar que o mesmo no
aconteceria com ela. Mas, no momento, o mais importante era saber que o
duque estava a salvo.
Jacques construra um leito muito confortvel na maior das carruagens de
Pierre Vallon, usando uma prancha de madeira colocada entre os bancos.
Sobre ela, ps dois confortveis colches. com a ajuda dos novos criados,
carregaram o duque pelas escadas e o deitaram na carruagem. Foram
bastante cuidadosos, mas ele sofreu: viu que apertava os lbios e que a
cor deixava seu rosto.
Havia lugar para Zia se sentar ao lado dele e para seu pai, no pequeno
banco oposto. Estava determinada a convencer o pai a passar para a outra
carruagem, com Maria, assim que deixassem a cidade.
As malas foram amarradas em cima das duas carruagens. Depois que o lacaio
do duque morreu na exploso, os criados do prncipe Ysevolsov tiveram o
bom senso de tirar toda sua bagagem da carruagem do czar. Do contrrio,
teria sido difcil arranjar roupas para ele, que era to alto e tinha
ombros muito largos.
Zia e Maria puseram nas malas s o essencial para usarem na viagem.
Havia muitas coisas que teria gostado de levar, lembranas da me, mas
sobrecarregar os cavalos numa viagem to longa podia impedi-los de chegar
ao destino. Assim, ela se restringiu a empacotar s o que achava que iria
realmente precisar, e tambm alguns de seus vestidos mais bonitos, que
eram leves e ocupavam pouco espao.
O mais importante de tudo era levarem comida suficiente, pois Jacques
achava que seria difcil comprar vveres durante a viagem.
- Quando h guerra, as pessoas ficam com medo de passar fome disse ele a
Zia. - E o patro ou a senhorita no podem ficar doentes por falta de
comida.
No incluiu o duque em seus cuidados. Jacques se ressentia do homem que
se introduzira na atmosfera familiar em que viviam.
- Voc no pode esquecer nosso invlido, Jacques.
- No faremos isso, mademoiselle - sua voz soou fria.
99
Em compensao, Maria achava o duque um dos homens mais finos que
conhecia e admirou a coragem com que enfrentou a dor. Faria qualquer
coisa que estivesse a seu alcance para ajud-lo. Mas era Jacques o
verdadeiro responsvel pela organizao da viagem, desde o momento em que
deixaram Moscou.
Quando, finalmente, estavam longe da cidade e no se podia mais ver suas
cpulas e torres, apenas o claro do fogo no cu, Pierre Vallon tinha uma
expresso que Zia logo reconheceu: uma composio estava se formando em
sua mente. Conhecia bem os sinais e, assim que foi possvel, parou a
carruagem e convenceu o pai a trocar de lugar com Maria. Se estava
compondo, ficaria melhor sozinho. No apenas estaria mais confortvel,
mas ela poderia conversar com o duque sem que algum os escutasse.
Desde o momento em que Pierre Vallon compreendera que seria impossvel
para o duque viajar s, pois poderia ser preso ou at morto, por ser
ingls, no se referira aos sentimentos de Zia novamente. Mas ainda
receava que sua filha entregasse o corao a um homem que nunca poderia
significar alguma coisa em sua vida.
Seria um grande alvio, pensou Zia, se ele se concentrasse realmente em
sua msica; assim no se sentiria mais culpada por estar indiretamente
desafiando o pai, a quem amava profundamente.
As carruagens partiram novamente e, quase imediatamente, Maria adormeceu.
Viajar sempre a fazia ficar com sono, e Zia pensou, sorrindo, que agora
estava s com o homem que amava.
- Voc est confortvel?
- Estou pensando em como tive sorte por no ter sido abandonado em
Borodino para morrer.
- Esquea isso. Disse a papai que estamos comeando um novo captulo de
nossas vidas e no quero mais pensar nas terrveis perdas que os dois
exrcitos tiveram, ou que Moscou est em chamas. Naturalmente, haver
problemas no futuro, mas sero novos problemas, e talvez devamos nos
sentir como as cobras, que se desfazem das peles velhas.
- Gosto de sua pele exatamente como  - disse o duque, calmamente.
101
Ela se sentiu corar.
Depois de um momento, ele continuou:
- Voc  uma pessoa notvel, Zia. No coheo outra mulher que
enfrentaria com tanta calma tudo o que aconteceu nessas semanas, ou que
abandonaria sua casa para ser queimada, sem se queixar ou derramar uma
lgrima.
- Eu me importo com isso, claro. Mas salvei as nicas coisas importantes
para mim: papai... e voc!
Disse as ltimas palavras mansamente e no olhou para o duque, pois sabia
que tinha os olhos presos no rosto dela. Gostaria de saber o que ele
pensava naquele momento.
Depois de um silncio de alguns minutos, virou-se para olhar e viu que o
duque adormecera.
Mais tarde, foi difcil para Zia se lembrar dos detalhes da longa viagem
de Moscou a Odessa. No podiam percorrer distncias muito longas a cada
dia, porque os cavalos precisavam descansar e no havia possibilidade de
troc-los.
Na verdade, devido  guerra, os cavalos se tornaram to escassos que um
dos criados precisava vigiar a noite toda para evitar que fossem
roubados.
Quando eles alcanaram o sul, onde o clima era mais agradvel, havia
frutas nas rvores e flores por toda parte. No se viam mais sinais de
guerra; s mulheres trabalhando nos campos, porque os homens haviam sido
recrutados para o servio militar, e que os cumprimentavam sorrindo e
estavam prontas a lhes vender a comida que quisessem.
Todos estavam cansados, mas Zia sentia uma nova vitalidade. Aquela
energia brotava da felicidade que sentia porque o duque estava ali e
porque mostrava sinais de melhora a cada dia.
Conversavam ou simplesmente ficavam sentados em silncio, e mesmo assim
sentiam que estavam se comunicando sem precisar de palavras. Havia uma
intimidade entre eles que Zia no conseguia explicar.
Jacques trouxe tendas para dormirem  noite ou, se fosse mais fcil e
102
confortvel, ela e Maria ficariam em uma carruagem, enquanto o pai
dormiria ao lado do duque.
Era ento quando Zia ficava deitada no escuro, pensando no seu amor, que
aumentava a cada hora, a cada minuto que estava a seu lado. Todo seu ser
ia de encontro a ele, ao homem que ela sempre sonhara encontrar, e a quem
ela amara secretamente em sua msica, mesmo antes de conhec-lo.
- Sou feliz - dizia a si mesma -, mais feliz do que nunca. Esta viagem
pode continuar para sempre, eternamente, e estarei contente.
Mas Odessa surgiu ao longe, no dia seguinte. Enquanto comiam,  margem da
estrada, Pierre Vallon disse:
- Levaremos o duque at o palcio do governador-geral. Depois,
encontraremos algum lugar para ficar.
Zia teve um sobressalto. Sem se dar conta do que fazia, olhou para o
duque com um olhar de splica.
- O que voc est dizendo? - perguntou ele. - Naturalmente, deve vir
comigo. Como sabe, no posso fazer nada sem voc.
- Acho que seria melhor, senhor, se nos separssemos. Afinal, o
governador-geral pode me considerar um inimigo de seu povo.
O duque sorriu:
- O governador-geral  francs!
Pierre Vallon pareceu surpreso. Blake explicou:
- O duque de Richelieu era um imigrante, durante a revoluo, e entrou
para o servio russo. Em 1803, tornou-se governador-geral da Nova Rssia,
como chamam a Ucrnia, e foi o responsvel pelo desenvolvimento do porto
de Odessa, que, tenho certeza, o impressionar. Sero bem recebidos no
palcio.
Mas Vallon ainda hesitou:
- Se prometer que isso no causar nenhum embarao ao senhor, Zia e eu
nos sentiremos honrados em acompanh-lo.
- Devo inform-lo, tambm, de que o governador-geral gosta muito de
msica. Na ltima vez em que estivemos em Odessa, h alguns anos, lembro-
me de ter ficado bastante aborrecido com o concerto a que tive que
assistir.
im
Vallon riu.
- Pensei que o senhor apreciava a msica.
- Gosto muito, quando  boa. E deixe-me dizer que estou esperando para
ouvir o que comps enquanto viajvamos.
- Ser um prazer tocar para o senhor, entretanto ser necessria uma
grande orquestra.
- Acho que o governador-geral poder arranjar isso.
- Tem mesmo certeza de que seus amigos nos acolhero? - perguntou Zia. -
Podem no gostar, ou talvez o palcio esteja cheio.
-  Espere para ver.
Chegaram, na tarde seguinte. Ao ver a silhueta dos ciprestes, trazidos
por Catarina, a Grande, recortados contra o cu claro e o mar atrs,
pensou que nunca havia visto nada to lindo como o palcio do governador-
geral.
Quando se dirigiram para a entrada, notou que havia um grande contraste
entre eles e a beleza do lugar: estava suja e amarrotada da viagem e o
duque, muito cansado.
Sua Excelncia, em pessoa, recebeu-os. No havia dvida de que eram bem-
vindos e de que Pierre Vallon e Zia no causariam nenhum embarao ao
duque.
- Ouvi-o reger em Londres. Posso lhe assegurar, monsieur, que nada pode
me dar maior prazer do que lhe oferecer minha hospitalidade.
Quando o duque apresentou Zia, o francs avaliou com olhos crticos e
disse:
- H um caminho fcil, mademoiselle, para o corao de Odessa: a beleza!
O duque estava muito cansado e adormeceu, to logo chegou ao quarto e foi
colocado na cama. Mas Zia, depois de um banho quente, ps um de seus
vestidos mais bonitos e desceu para o salo.
A esposa do governador-geral recebeu-os com entusiasmo, apesar de algumas
das outras mulheres do palcio no terem sido to efusivas, encarando-a
como uma rival com a qual sabiam que no podiam competir.
Mas o fato deles terem vindo de Moscou e trazerem notcias da batalha,
que s agora era relatada em Odessa, fez de Pierre Vallon o centro
104
das atenes. Teve que explicar em detalhes tudo o que acontecera, alm
de contar de sua entrevista com o imperador Napoleo.
- Como ele pde se comportar de uma maneira to pouco civilizada? -
perguntou a duquesa de Richelieu. - No passa de um corso brbaro e
selvagem.
- Concordo com voc, minha querida - disse o governador. - Mas, ao mesmo
tempo, temos que admitir que foi uma espantosa proeza conduzir seiscentos
mil homens para to longe e entrar em Moscou sem encontrar nenhuma
resistncia.
- S espero que ele morra queimado, junto com aquelas adorveis casas! -
exclamou um dos convidados. - Neste inverno, queria ir aos bailes, em
Moscou.
- Certamente, no haver bailes - respondeu Vallon. - Provavelmente,
quando os franceses se retirarem, no restar mais nada em p; exceto,
talvez o Kremlin.
- Por que os franceses partiriam? - perguntou a duquesa.
- Tero que partir - explicou Vallon. - No h comida suficiente para
muito tempo, a no ser para o corpo de oficiais. O que restou da
populao russa, escondida nas igrejas e pores, j est morrendo de
fome.
- Isso no quer dizer nada! - gritou uma das hspedes. - S espero que
todos os franceses, cada pessoa daquele destestvel pas, cedo ou tarde
morram como ratos em armadilhas.
Fez-se um desconfortvel silncio, pois o governador-geral e Pierre
Vallon eram franceses.
De repente, todos comearam a falar ao mesmo tempo.
Nos dias que se seguiram, Zia no sofreu nenhum embarao e recebeu
somente amabilidades, mesmo dos convidados russos.
- Seus olhos so russos, minha querida - disse-lhe uma velha condessa. -
Sei que, como sua av e sua me, voc sente as coisas muito
profundamente. Isso  a glria e a maldio do nosso povo.
Frequentemente, atingimos o xtase, mas tambm conhecemos o desespero.
No se pode ter um sem o outro.
106
- Acho que no, senhora.
Era um xtase estar com o duque, v-lo, falar com ele, mas era tambm um
profundo desespero saber que,  medida que melhorava, o tempo para
ficarem juntos diminua.
To logo ele se recuperou da extenuante viagem, pde sair da cama e se
sentar na sacada do quarto, de onde se via o jardim e o mar. Alguns dias
mais tarde, foi trazido para baixo, para sentar-se na varanda.
-  to bonito aqui! - disse Zia.
- S est faltando uma coisa.
- O qu?
- Sua msica.
- Quer que eu toque para voc?
- Gostaria.
Havia um piano na sala. Sem dizer mais nada, encaminhou-se para l e
sentou-se. As janelas estavam abertas e podia ver o duque, enquanto
tocava. Achou que ele devia ouvir uma das composies de seu pai, que
descrevia fielmente a beleza da natureza.
Quando comeou a tocar, inconscientemente expressou, na msica, no o que
o pai sentia quando a comps, mas o que ela sentia no momento. Seu amor
jorrava atravs de seus dedos, com o xtase que ela sentiu no momento em
que viu o duque. Enquanto tocava, ela lhe dizia que sempre tinha
acreditado que um dia encontraria o amor, assim como sua me; que um dia,
o homem que era somente um sonho em seu corao, se materializaria.
Agora, era real, muito real. Assim que o viu, ela o reconheceu, porque j
o amava h anos, ou talvez h sculos, em outras vidas.
Alm do amor, havia tambm o desespero, o conhecimento que
inevitavelmente eles se separariam.
Ela lhe disse que, se nunca mais o visse novamente, seu corao sempre
estaria com ele, suas oraes o protegeriam e seu amor seria eterno.
Como sempre, quando tocava, foi transportada para longe, e esqueceu de
tudo, exceto do amor que expressava. Quando terminou, era como se no
houvesse mais nada a dizer. De repente, sentiu-se exausta. S
107
ento, deu-se conta de que havia vrias pessoas ouvindo, inclusive seu
pai. Estavam na varanda, ao lado do duque.
Quando Zia voltou  realidade viu o rosto de seu pai e soube que lhe
revelara o que sentia. Ele estava profundamente emocionado e ao mesmo
tempo, apreensivo.
Zia compreendeu que se trara. Pondo-se de p, sem explicar ou se
desculpar, saiu da sala e subiu a escada para se refugiar em seu quarto.

CAPITULO VII

Ao entrar no quarto, para se vestir para o jantar, Zia viu sobre a cama
a linda capa que a duquesa lhe deu para usar com seu vestido. Trs dias
atrs, o governador-geral dissera, durante o almoo:
- Nosso mais distinto convidado, o duque de Welminster, diz que se sente
bastante bem para apreciar uma festa. Assim, todos que desejam conhec-lo
sero convidados.
- Uma festa? Que tipo de festa? - perguntou a duquesa, do outro lado da
mesa.
- Do tipo que voc gosta, minha querida, com danas e, naturalmente, para
alegria de monsieur Vallon, com os melhores msicos da Nova Rssia!
"Danas!", exclamaram as senhoras, em unssono.
- Vossa Excelncia est dizendo que vai oferecer um baile?
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- Exatamente. Espero que nosso esplendor imperial seja to suntuoso como
o que o duque desfrutou em So Ptersburgo.
O duque sorriu.
- Todos eram muito srios em So Ptersburgo, no houve bailes enquanto
eu estava com Sua Majestade Imperial, e sim recepes, onde todos falavam
eternamente do mesmo assunto.
- Publicarei um decreto dizendo que ningum poder falar de guerra, e
todos seremos completamente fteis e alegres!
Ouvindo isso, Zia pensou que seria muito excitante estar presente a um
baile como os que a me lhe descrevera muitas vezes. Sabia que seria
magnfico e que tudo cintilaria, desde os candelabros de cristal at os
convidados cobertos de jias.
Mas tambm sabia, com uma dor no corao, que agora que o duque estava
bem, logo partiria de Odessa, e o momento em que o veria pela ltima vez
estava cada vez mais prximo.
A nica pessoa que no parecia muito entusiasmada com a ideia do baile
era seu pai, pois no gostava de festas formais, e Zia suspeitava de que
no se impressionaria com a msica que o governador-geral contratara para
diverti-lo.
Enquanto isso, como qualquer mulher, Zia comeou a se preocupar com o
que deveria usar. Queria que o duque a admirasse. Seria humilhante se se
sentisse diminuda pelas outras senhoras. Felizmente, entre as coisas que
trouxera de Moscou, havia um belssimo vestido de noite que nunca tinha
usado. Mandara faz-lo para o Baile de Inverno, no Kremlin, mas logo
depois sua me morrera e o vestido fora guardado.
Pelo que a me dizia, se o baile do governador-geral, em Odessa, fosse
como os de So Ptersburgo, todas as senhoras usariam capas. Isto era uma
coisa que ela no tinha.
Entretanto, a duquesa mandou cham-la, na noite anterior. Quando chegou
aos aposentos do governador-geral, encontrou sua anfitri deitada em um
div, perto da janela, vestindo um bonito neglig.
- Sente-se, querida. Quero falar com voc. Parece que desde que chegou
no encontramos um momento para conversarmos.
-  muita bondade de sua parte, senhora, receber meu pai e a mim.
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- Seu pai  assunto de meu marido, mas voc, por ser filha de Natasha, 
assunto meu.
- Conheceu minha me? - perguntou, com os olhos brilhantes.
- Conheci, sim, na Frana, logo depois que se casou com seu pai e antes
de eu e meu marido precisarmos fugir do pas, para no sermos
guilhotinados.
Tomou ento a mo de Zia e disse, gentilmente:
- Agora, ela no est mais com voc e eu sei que voc sente falta dela.
Voc se parece muito com Natasha!
Os olhos de Zia encheram-se de lgrimas e a duquesa continuou:
- Sei que, nas circunstncias em que se encontra, no momento, sua me
gostaria que voc apreciasse o baile de amanh  noite. Por isso, deve
permitir que eu lhe d uma capa. Espero que saiba que  correto uma, em
ocasies como essa.
- Sei disso, senhora, e me sinto embaraada por no ter uma.
- Tolice. Olhe no outro quarto, sobre a cama, e diga se gosta do que v.
Era a capa mais bonita que j tinha visto: de seda azul-turquesa, bordada
com prolas e debruada com arminho branco. Olhou para seu presente,
encantada. Depois, foi ter novamente com sua anfitri.
-  linda! Realmente linda! A senhora est certa de que quer me dar algo
to valioso? Talvez eu deva apenas pedi-la emprestada por uma noite.
-  um presente. E tenho um broche que combina muito bem e que gostaria
que voc usasse.
Abriu uma caixa forrada de veludo que estava a seu lado, e tirou um
broche de turquesa e diamantes, com um desenho muito delicado.
- No sei como lhe agradecer por to adorveis presentes. Tenho certeza
de que as turquesas me traro sorte, como dizem.
- Aqui no Cucaso, acredita-se que as turquesas trazem muita sorte e
talvez seja isso que voc precise no momento.
Zia no respondeu, mas a duquesa viu a tristeza em seus olhos.
- A vida tem sido difcil para voc, minha menina, especialmente
111
quando as duas naes s quais pertence esto em guerra. Mas tenho o
pressentimento de que encontrar a felicidade, quando menos esperar.
- Assim... espero.
Como no queria falar sobre o duque com ningum, agradeceu novamente 
duquesa e foi para seu quarto.
Quando ficou s, perguntou-se como seria possvel encontrar a felicidade,
se teria que perder o duque.
Imaginava como seria capaz de dizer a palavra "adeus", pois tinha medo de
cair a seus ps, chorando, quando o momento chegasse. Depois, convenceu-
se de que seu orgulho a ajudaria a se comportar com dignidade. O orgulho
que vinha do sangue dos Strovolsky!
Quando passeava com o duque no jardim e o ouvia falar, com sua voz grave,
sabia que o amor que sentia era to intenso que seria difcil se
comportar como ele esperava que fizesse. Como podia algum cham-la de
"Donzela de Gelo", quando todo seu corpo parecia arder em chamas?
Ainda se sentia envergonhada da maneira pela qual se deixara levar pela
msica e revelara seus sentimentos.
- Fui tola e indiscreta!
Porm, s vezes achava que explodiria, se no expressasse o fogo que a
consumia. Ento, pensava que o prtico e sensato lado francs de sua
natureza deveria controlar o mpeto selvagem do lado russo. Mas, na
verdade, no havia uma s parte de seu ser que no estivesse
desesperadamente apaixonada.
A criada preparou um banho perfumado para Zia, que cheirava a tuberosas,
as flores da paixo. Tinha visto algumas no jardim, naquela manh,
enquanto passeava com Blake. Sempre ele! Tudo fazia com que se lembrasse
dele. Foi to bom conversarem, andando entre os canteiros
Voc est realmente melhor? - ela perguntou. - O baile hoje  noite no
 ser demais para voc?
- Maria fez-me a mesma pergunta, mas mesmo ela teve que admitir que meus
ferimentos esto curados. No pode mais me vigiar, como se fosse um
menino... Nem voc.
112
- Eu no... tive a inteno... de fazer isso.
No dizia a verdade: queria que ele continuasse indefeso, pois assim ela
e Maria seriam indispensveis.
- Meus ferimentos esto fechados, mas ficarei com as cicatrizes como
lembranas da batalha de Borodino.
-  uma coisa de que no desejo me lembrar. Quando os criados o trouxeram
para nossa casa em Moscou, pensei... que estivesse morto.
- No fui feito para morrer - disse o duque, alegremente -, e algum dia
lhe direi porqu.
Olhou-o inquisidora, imaginando o que queria dizer com aquilo, mas ele
olhava para o outro lado, alm do horizonte.
Est lembrando de sua casa, na Inglaterra, pensou, com um aperto no
corao.
Talvez devesse lhe perguntar quando deixaria Odessa. Mas no suportaria
ouvir a resposta.
- Acho que sempre me lembrarei da beleza deste jardim - disse o duque -,
e de que voc parece uma de suas flores.
Seus olhos se encontraram e, por um momento, estavam to prximos um do
outro como no dia em que ele a ouviu tocar. Ento, antes que pudessem
dizer alguma coisa, foram abordados por pessoas que queriam falar sobre o
baile.
Depois do banho, Zia sentou-se na frente do espelho, enquanto a criada
lhe arrumava o cabelo.
Entre as jias que a me lhe deixou, havia uma delicada tiara de
diamantes que Natasha Strovolsky ganhara em seu dcimo stimo
aniversrio. Zia abriu o estojo e achou que devia us-la, no primeiro
baile de sua vida. Tinha visto a me com a tiara em vrias ocasies,
quando acompanhava o pai aos lugares onde Zia era muito jovem para ser
convidada.
- Voc parece uma princesa dos contos de fadas, mame! - disse, um dia. -
E papai , naturalmente, o prncipe encantado.
- Isso  o que ele sempre foi para mim. Estou to feliz em poder us-la
hoje  noite! Quase a vendi, quando nos casamos, pois ramos pobres,
antes de seu pai ser reconhecido como um grande msico. Entretanto, ele
insistiu para que ficasse com ela e hoje estou contente por t-lo ouvido.
Zia sabia que no era por seu valor, mas porque aquela tiara repre
sentava tudo que a me abandonara em nome do amor.
Talvez eu nunca mais v a um baile como esse, pensou.
Estava certa de que, quando chegassem  Frana, haveria poucas oca sies
festivas, pois a guerra ainda continuava.
com a tiara que lhe dava um ar de realeza, vestiu-se e depois colocou a
sofisticada capa azul-turquesa sobre os ombros. Ao se olhar no espelho
ficou imaginando o que o duque pensaria quando a visse.
Seu pai entrou no quarto.
- J est pronto, papai?
- Quero falar com voc.
Sua expresso mudou. Fez um gesto para a criada sair e esperou at que a
porta se fechasse.
- O que , papai?
Pierre Vallon atravessou o quarto. Sabia, instintivamente, que ele
procurava palavras para comear.
- O que ? - insistiu.
- H um navio turco no porto. Partir ao amanhecer. Zia prendeu a
respirao.
- Falei com o capito - continuou seu pai -, e ele nos levar at
Marselha.  uma oportunidade que no podemos perder.
- Mas, papai!
- Antes que voc diga alguma coisa, deixe-me explicar que um navio ingls
dever chegar em dois ou trs dias. Ouvi o duque dizendo a um dos
ajudantes-de-ordem do governador, que pretendia embarcar nele para a
Inglaterra.
Zia sentou-se na banqueta em frente ao espelho, sentindo as pernas
fracas.
- O que quero que faa - disse Vallon -  que saia do baile e v
diretamente para o navio, onde a estarei esperando.
- Sair do... baile?
- Ser melhor, minha querida. De que adianta se torturar ao dizer
adeus ao duque, sabendo que no ganhar nada, a no ser mais tristeza e
infelicidade do que j sente agora?
- Voc sabe... quanto eu... o amo.
- Sim, eu sei. Mas como voc concordou desde o incio, no pode haver um
final feliz para essa histria. Acho que meu mtodo de partir  melhor
para voc e para ele tambm.
- Melhor para... ele?
- O que ele pode fazer, a no ser agradecer? O duque de Welminster  to
importante na Inglaterra como seu av era na Rssia. Eles sempre tiveram
orgulho da famlia e de seu sangue, o que no permitiria que descessem na
escala social, por motivo algum, nem mesmo por amor!
Zia apertou as mos, at seus dedos ficarem brancos. O que o pai dizia
era verdade, mas isso no tornava a situao menos desesperadora.
- Precisa ter coragem, querida. Este ser o caminho mais fcil. No
esperou a resposta:
- Falei com Maria. Ela j est fazendo as malas e deixar o palcio,
junto com Jacques, tarde da noite.
Zia esperou para ouvir o que ele tinha para lhe dizer, como se fosse
receber um golpe de machado.
- Estarei esperando por voc no jardim, numa carruagem. Se sassemos do
salo juntos, poderamos provocar comentrios.
Talvez o duque nos detivesse, pensou Zia, mas no disse nada. Continuou
escutando o pai.
- O governador-geral contratou uma orquestra cigana para tocar,  meia-
noite. Sinto perdermos isso, mas sugiro que, quando todos estiverem com a
ateno voltada para o espetculo, voc venha para o jardim, onde estarei
esperando.
- Parece muito... grosseiro.
- J pensei nisso. Escrevi uma carta para o governador e para a duquesa,
agradecendo-lhes a hospitalidade.
- E... o duque?
Zia no conseguiu evitar a pergunta, que explodiu em seus lbios.
- Quando ele souber que fomos embora, apreciar o que fizemos e a maneira
pela qual o poupamos do desconforto emocional que teria que
enfrentar. Os ingleses desprezam tudo que possa quebrar sua tradicional
reserva.
- Tem certeza de que ele no vai considerar uma descortesia de nossa
parte e se ressentir por no lhe termos contado o que pretendamos fazer?
- Quer que eu seja franco?
- Claro, papai!
- Sei que o duque acha voc muito bonita e desejvel, mas temos que
encarar os fatos, minha querida: ele deseja mais do que isso na mulher
que quer tornar sua esposa.
Zia fechou os olhos, e disse, numa voz que, mesmo para ela, soou triste
e desanimada:
- Farei o que quiser, papai, porque confio em voc. Talvez esteja certo
em dizer que devemos poupar ao duque qualquer embarao.
-  muito sensata, minha querida. Acredite-me, se pudesse poup-la desse
sofrimento, se pudesse tomar seu desespero para mim e deix-la livre,
assim o faria.
Zia correu para abra-lo.
- Pensei que amar significava felicidade e alegria, mas o que estou
sentindo  uma escurido onde, tenho certeza, o sol nunca mais vai
brilhar.
- Foi assim que me senti, quando sua me morreu. Mas a vida continua e
talvez um dia voc encontre algum para amar e que a faa feliz.
Zia queria gritar que isso nunca aconteceria; mas, para que preocupar
ainda mais o pai? Continuaram abraados por um momento, at que Pierre
Vallon disse:
- No podemos nos atrasar para o jantar que Sua Excelncia est
oferecendo para o duque e para ns esta noite.
Ele saiu do quarto e Zia voltou para a frente do espelho. Ficou surpresa
em ver que sua aparncia em nada mudara. Sentia que seu pai tinha lhe
roubado a juventude e no se espantaria ao ver-se velha, enrugada e de
cabelos brancos. Mas, ao contrrio, continuava adorvel; exceto que, no
fundo de seus olhos de cor violeta, uma luz havia se apagado.
114
O salo de baile, com seus imensos candelabros, cada um com centenas de
velas, estava perfumado por flores. Nas cornijas, no alto das paredes,
havia fileiras de velas acesas, o que Zia nunca tinha visto antes.
Tambm no imaginava que as mulheres pudessem usar jias to cintilantes,
desde magnficas tiaras at botes de sapato.
A duquesa e suas damas de companhia usavam o vestido de seda branca, da
corte russa, decotado, com o corpo justo e uma capa vermelha bordada a
ouro. Tambm usavam a fita da Ordem de Santa Catarina, com sua cruz de
diamantes.
Os homens vestiam, quase todos, magnficos uniformes, cobertos de
condecoraes e fitas.
A noite era um espetculo de contos de fadas. Zia ficou deslumbrada ao
entrar na imensa sala de jantar: o servio era de ouro e seu lugar, ao
lado do governador-geral.
O duque estava sentado  direita da duquesa, que tinha Pierre Vallon 
sua esquerda, pois, como explicou o governador, ela, o pai e Blake eram
os convidados de honra da noite.
- Todos aqui vieram para conhec-los - disse ele, sorrindo.
- Apesar de sermos franceses?
- Assim como eu. Minha querida, a msica  internacional, no tem
fronteiras e, na minha opinio, seu pai  rei de um imprio muito maior
do que o que Napoleo Bonaparte est tentando conquistar.
Seu pai estava se divertindo. Achava que tambm para ela seria uma noite
maravilhosa, exceto que encerraria o captulo mais importante de sua
vida.
- Um captulo bastante curto - murmurou.
No podia deixar de pensar no que seria dela, quando no pudesse mais ver
o duque, e ficasse mais solitria do que nunca.
Blake estava to atraente que ningum podia ser comparado a ele. Ao
entrarem no salo de baile, ele veio at ela.
- No posso lhe pedir para danar comigo, Zia, porque Maria me proibiu
de fazer algo to arriscado. Mas voc se importaria de sentar ao meu lado
e conversar?
- Voc sabe que gostaria disso.
117
Iria com ele para onde quisesse, mas o governador-geral convidou-a para
danar e era impossvel recusar um pedido real. Quando a dana terminou,
surgiram outros parceiros e passou-se mais uma hora at, finalmente, o
duque vir para seu lado. Sem dizer nada, os dois saram do salo de baile
e foram para o terrao.
Era uma noite estrelada e uma lua crescente movia-se no cu. O jardim
iluminado era um poema de beleza. Mais alm, estava o mar.
Sentaram-se num banco, na sombra, onde podiam ouvir a msica que vinha do
salo. Por um momento, Zia no encontrou nada para dizer, at que o
duque perguntou:
- Est preocupada? - Como sabe?
- Pensei que concordamos, muito tempo atrs, que eu podia ler seus
pensamentos.
Zia no respondeu. Esperava que, naquele momento, ele no pudesse fazer
tal coisa. Sentiu o pnico apoderar-se dela, mas percebeu que estava com
medo  toa.
Uma coisa era ele compreender o que ela tocava no piano, e outra, bem
diferente, era saber que dentro de uma hora eles nunca mais se veriam.
- Vai me dizer o que a est preocupando? Ou preciso adivinhar?
- Por que devo estar preocupada com alguma coisa? Est uma noite
maravilhosa e prestam uma grande homenagem a voc.
- E naturalmente tambm a voc. Preciso dizer-lhe como est adorvel?
Havia uma nota em sua voz que a fez estremecer. Depois, convenceu-se de
que ele estava apenas sendo educado e forou-se a dizer:
- Todos tm sido to bondosos. Sua Excelncia deu-me esta linda capa... e
sempre me lembrarei deste momento em Odessa.
- H outros momentos para lembrarmos.
- Voc se lembrar?
Zia no pde evitar a pergunta; queria, mais do que tudo, ouvir a
resposta.
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- Acho que o que vou lembrar mais vividamente  de quando voltei 
conscincia, depois do acidente, e vi seu rosto.
Zia sentiu-se estremecer outra vez. Sempre desejou que ele lhe falasse
assim.
- Tive o pressentimento - continuou o duque - de que voc me chamava da
escurido que me envolvia.
Era por isso que ela tinha rezado: para que ele sentisse que o chamava
desesperadamente das profundezas da morte.
- Acha que algum dia poderia esquecer? - perguntou o duque.
- Por favor, lembre-se sempre de mim!
As palavras saram sem querer e havia uma expresso de splica no rosto
dela. Seus olhos se encontraram e ele pareceu olhar bem dentro de seu
corao.
De repente, como se vinda de outro mundo, uma voz disse:
- Finalmente a encontrei, mademoiselle Vallon! Estive procurando-a. Sua
Excelncia deseja que dance a mazurca com ele.
Foi difcil para Zia entender logo. Ento, voltando  realidade, ela
ps-se de p.
-  muita bondade de Sua Excelncia - conseguiu dizer ao ajudante-de-
ordem que fora enviado  sua procura.
- Deixe-me conduzi-la ao salo de baile, mademoiselle.
- Obrigada.
No pde olhar para o duque. Apenas sentia como se estivesse sendo
arrastada para longe dele. Queria agarrar-se a ele e implorar para que
no deixasse lev-la.
Em vez disso, seguiu o rapaz de volta ao salo. Agradeceu ao governador-
geral por sua gentileza e iniciaram a mazurca.
Depois disso, foi impossvel escapar dos homens que a rodearam. Sempre
que uma dana terminava, olhava em volta,  procura do duque; mas, antes
que pudesse v-lo ou ir em sua direo, algum j estava perto dela e era
forada a danar.
Danava automaticamente e no ouvia o que seus parceiros lhe diziam.
Apenas pensava que o tempo estava correndo cada vez mais depressa
119
e que tudo o que queria era passar os ltimos minutos com o homem
que amava.
Desesperada, ela se deu conta de que no via mais o pai, e sabia onde ele
tinha ido.
A dana chegou ao fim. Agora, ouvia-se o som de tambores e a orquestra
cigana apareceu no salo, com suas roupas coloridas. Os convidados
tomavam seus lugares para assistir ao espetculo. As mulheres mais velhas
sentaram-se em cadeiras e sofs dispostos ao redor da sala e os homens
ficaram em p, ao lado delas, ou em grupos, esperando para aplaudir a
atrao que seu anfitrio lhes oferecia.
Quando as ciganas comearam a danar, com suas saias rodadas, colares de
ouro e braceletes, Zia percebeu que era hora de partir. Olhou em volta
mais uma vez, esperando ver o duque, mesmo sabendo que, se o visse, no
havia nada que pudesse fazer. Agora, era muito tarde para conversarem.
Alm disso, o que mais havia para dizer, a no ser que o amava?
Era fcil para ela escapar por uma das portas do salo que ia dar no
terrao, pois todos tinham a ateno voltada para os ciganos. Desceu os
degraus at o jardim e comeou a caminhar atravs do gramado. L embaixo,
avistou uma carruagem. Estava fechada e havia dois homens sentados no
lugar do cocheiro, um dos quais saltou para abrir-lhe a porta, assim que
ela apareceu.
Sentindo como se estivesse indo para a morte, Zia entrou na carruagem e
sentou-se no banco de trs. A porta foi fechada, o cocheiro subiu para
seu lugar e os cavalos partiram.
Zia inclinou-se para a frente, para olhar pela ltima vez o jardim que
acabava de deixar.
- Adeus, meu amor, meu nico amor... agora e para sempre! Ento, quando
se recostou novamente no assento, lutando contra as
lgrimas que a cegavam, uma voz grave perguntou:
- Para quem est dizendo adeus, Zia?
Ela gritou, chocada e surpresa, pois esta no era a voz de seu pai, mas a
do duque. Voltou-se para ele e,  luz fraca das lmpadas do caminho
120
, pde ver seu rosto e seus olhos, presos nos dela. Por um momento,
foi incapaz de pronunciar uma palavra. Depois, balbuciou:
- Por que... est. aqui? O que... aconteceu?
- Esta era a pergunta que eu devia fazer. Achou mesmo que poderia me
deixar, sem que eu soubesse?
- Mas... papai disse...
- Seu pai est a bordo do navio turco que o levar para a Frana. Tenho
apenas uma pergunta para lhe fazer, Zia, e quero que me responda
honestamente.
- O que ?
-  bem simples. Quero que me diga quem voc ama mais: seu pai
ou eu.
Pensou que no tinha ouvido direito. Depois, quando olhou para ele, notou
uma expresso em seu rosto que nunca tinha visto antes, e seu corao
saltou no peito.
-  uma pergunta muito importante - disse o duque -, porque a escolha 
sua. Posso lev-la, agora, at seu pai, para que parta com ele, ou voc
pode ficar comigo.
Zia no conseguiu falar, e ele continuou:
-  s uma questo de amor. Esta  a resposta que quero que me d.
- Eu o amo! Amo desesperadamente, mas... Blake passou os braos em volta
dela, dizendo:
- No h "mas". Se me ama, se realmente me ama,  tudo que importa.
- Eu o amo!
As palavras pareciam sair do fundo de sua alma.
O duque apertou-a nos braos e, quando levantou o rosto, seus lbios
se encontraram.
A presso dos lbios dele fez com que se lembrasse do xtase que sempre
sentia, quando estavam juntos. Mas agora era muito mais intenso, mais
perfeito.
Ele a abraou com mais fora e o beijo se tornou mais exigente e
insistente. Sentiu como se o fogo que ardia em seu ntimo tivesse chegado
aos lbios. E eles se perderam naquele maravilhoso momento.
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Zia no tinha ideia de quanto durou aquele beijo. S percebeu que,
quando o duque se afastou, as palavras saram de seus lbios como uma
msica:
- Eu te amo, te amo!
- E eu amo voc - respondeu o duque. - Amo voc, desde a primeira vez que
a vi, mas queria estar bem, antes de poder falar da profundidade e da
beleza do meu amor.
- No  possvel! No posso acreditar!
- Amo voc! Agora que fez sua escolha, vamos nos casar imediatamente.
- Casar?
- Ser tudo mais fcil, minha querida, quando partirmos para a
Inglaterra. Devo lhe dizer tambm que j temos a bno de seu pai.
- Papai... sabe que voc pretendia... fazer isso?
- Quando soube que voc estava me abandonando, decidi no deixla ir.
- Como voc sabia que eu ia embora?
- Voc me disse
- Eu lhe disse?
Ele sorriu e seus lbios procuraram os dela. Foi um beijo suave e
carinhoso.
- Querida, teria sido muito difcil para voc me enganar. Quando a
observava, durante o jantar, eu sabia o que estava pensando. E quando nos
sentamos juntos, no terrao, tive certeza do que voc planejava.
- Como podia saber?
- Voc devia ser a ltima pessoa a fazer tal pergunta!
Ela sorriu, lembrando como ele tinha lido seus pensamentos, na primeira
vez em que a ouvira tocar.
- Ento, eu compreendi que havia sido de certa forma omisso, em no tomar
a iniciativa antes. Encontrei seu pai e disse a ele o que eu queria. Ele
concordou que, no que lhe dizia respeito, seria uma soluo perfeita para
tudo que o preocupava.
- E papai ainda quer ir para a Frana?
- Ele acha que  uma oportunidade que no deve ser perdida. Encontrar
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um navio neutro no  fcil, e acho que tambm est agindo com
tato, sabendo que ns vamos querer ficar a ss.
Havia um leve tom de angstia em sua voz, quando perguntou:
- Minha querida, voc quer ficar a ss comigo, no quer?
Soube a resposta antes das palavras aflorarem os lbios dela, e mais uma
vez a beijou. A carruagem parou.
- Um dos ajudantes-de-ordem de Sua Excelncia arranjou tudo para ns -
disse o duque. - Pensei que voc gostaria de se casar na f  qual sua
me pertencia. E parece apropriado, j que estamos na Rssia.
- Isso me faria muito feliz - disse Zia, em voz baixa.
A porta da carruagem foi aberta e ela viu que estavam diante de uma
pequena igreja. Tinha sido construda no antigo estilo russo, pintada em
cores brilhantes e com cpulas douradas, umas sobre as outras.
O duque tomou-a pela mo e entraram.
Havia perfume de incenso e centenas de luzes cintilantes diante das
imagens sagradas, que pendiam de cada parede e de cada pilar.
Um padre os esperava com dois ajudantes que seguravam as coroas imperiais
que seriam colocadas sobre suas cabeas, enquanto se realizasse a
cerimnia do casamento.
Zia tinha certeza de que sua me estava junto dela e profundamente feliz
pela filha ter encontrado o homem que realmente amava.
- Obrigada, obrigada meu Deus! - rezou, do fundo do corao. O Senhor me
deu o homem que adoro. Ajude-me a faz-lo feliz e mostreme como manter
seu amor para sempre.
Quando saram da igreja, Zia pensou estar vivendo um sonho. Parecia
incrvel ter passado por uma experincia to mstica e espiritual e ainda
estar neste mundo.
O duque abraou-a e seus lbios,  procura dos dela, aumentaram a iluso
de que nada era real, exceto ele e seu amor.
Beijou-a, at ela sentir como se fossem um s, e ainda mais prximos de
Deus do que durante a cerimnia de casamento.
- Meu amor, minha adorada esposa.
- Diga isso novamente. Eu estava to certa, to convencida de que
voc nunca poderia se casar comigo, que no posso acreditar que sou
realmente sua.
- Farei voc ter certeza disso em pouco tempo.
- Voc nunca vai se arrepender de ter se casado comigo?
- S se voc parar de me amar.
- Eu o amarei cada minuto de minha vida - disse Zia, apaixonada.
- Minha adorada!
Os lbios de Blake procuraram novamente os dela e beijou-a at que seu
corao pareceu que ia explodir.
Quando os cavalos diminuram a marcha e a carruagem parou, Zia lastimou
que eles tivessem que voltar  terra.
Achava que o governador-geral e a duquesa estariam esperando para
cumpriment-los, mas no queria que ningum naquele momento interrompesse
a intimidade do abrao do marido.
A porta da carruagem foi aberta e ela viu que no estavam no palcio, mas
sim na frente de uma construo bem menor, tambm de pedra. De repente,
se deu conta de que era um dos pequenos pavilhes construdos na rea do
palcio, geralmente ocupados por convidados importantes, que traziam seu
prprio squito de criados.
Mais uma vez, Blake adivinhou o que ela pensava.
- Estaremos a ss, minha querida. Quero isso mais do que voc. Ele a
conduziu para dentro do pavilho e fechou a porta, enquanto a
carruagem partia.
Havia flores que perfumavam o ambiente e algumas luzes que revelavam a
beleza da decorao do pavilho, mas ningum mais, nenhum criado, apenas
eles dois.
O duque conduziu-a atravs de uma sala de estar e, depois, para o quarto,
iluminado apenas com algumas velas, onde havia uma esplndida cama com um
dossel de seda azul-turquesa.
No teto havia painis pintados com deuses, deusas e cupidos, e numa das
paredes, uma enorme janela que foi aberta, para que Zia pudesse admirar
as estrelas l fora.
Envolvendo-a nos braos, ele levou-a at a janela e Zia pde ver ao
longe o mar banhado pelo luar.
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- Isto no pode realmente estar acontecendo! - ela murmurou.
- Est acontecendo, minha querida, e agora, finalmente, voc  minha! No
apenas por uma noite, mas por muitos anos, e mais alm, para a
eternidade!
Puxou-a para si e continuou:
- Acredito que tenho procurado por voc h sculos, e agora que a
encontrei, no vou mais deix-la ir.
- Isso  maravilhoso.  tambm o que eu acredito, em meu corao, mas
pensei que teria que... partir.
- Como voc pde imaginar que alguma coisa seria mais importante do que
nosso amor?
Zia deu um pequeno suspiro e encostou a cabea no ombro dele.
- Eu achava que voc fazia parte do fechado crculo da nobreza que vi em
So Petersburgo. E que condenou minha me, quando ela fugiu.
- A nica coisa que importa para ns  o esplendor do amor. Nosso amor,
querida. Quero que voc diga que tambm acredita nisso.
- Sempre acreditei, mas pensei que, por voc ser to importante, nunca
olharia para mim, nunca pensaria em mim para ser... sua esposa.
- Voc no  apenas minha esposa, mas um ideal espiritual que adorarei
pelo resto de minha vida.
- E se eu decepcionar voc?
- Aposto minha vida como isso nunca acontecer!
A nota de sinceridade em sua voz fez Zia olhar para ele com ternura.
Pensou que ia beij-la mas, em vez disso, olhou bem dentro de seus olhos,
como se procurasse no corao dela o que ele sempre desejara encontrar.
Blake levou-a para longe da janela, gentilmente tirou a tiara de
diamantes de seu cabelo e a capa de seus ombros.
Zia estremeceu, quando sentiu as mos dele desatando seu vestido.
Ento, os lbios de Blake a prenderam.
O calor que sentia dentro do corpo aumentou mais e mais, enquanto ele
beijava seus olhos, lbios, pescoo e seios. Sabia que Blake estava
certo, ao dizer que no havia esplendor maior do que o amor deles.
O que sentiam um pelo outro era como as estrelas no cu, que cintilavam
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mais do que qualquer jia, e mais profundo do que o mar, que se
avistava da janela.
A pompa e a distino social, que eram to importantes para a nobreza,
no tinham significado algum para eles.
- Eu amo... voc...
As palavras pareciam vibrar entre eles.
- Amo sua beleza, minha querida esposa, e adoro tambm seu esprito e sua
alma, que falam comigo atravs da sua msica.
- Eu lhe falei do meu amor.
- Eu compreendi perfeitamente o que voc sentia. Mas diga-me agora que
voc me ama e que me deseja como eu a desejo.
- Eu o quero, eu o quero desesperadamente, loucamente, com todo
o meu ser.
- Minha querida, minha adorada!
Zia podia sentir o corao de Blake batendo fortemente de encontro ao
seu, quando ele a tomou nos braos e a deitou na cama.
Logo depois, estava ao lado dela, os lbios procurando os seus, as mos
tocando seu corpo.
De repente, havia somente ele, e o fogo que ardia dentro deles tomou
conta de seus corpos.
O esplendor do amor os cobria como o luar sobre o mar, e o xtase que
sentiam no corao os levou em direo s estrelas, cada vez mais alto,
at que se tornaram um s, inseparveis, para sempre.
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FIM

                            *****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
A histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que, segundo a prpria Barbara,
a literatura d muita importncia aos aspectos mais superficiais do sexo,
o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris
cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha
Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas
do Himalaia.
A preciso das reconstituies de poca  outro dos atrativos dessa
autora inglesa que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros, 
tambm historiadora, teatrloga, conferencista e oradora poltica. Mas
Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos
problemas do seu tempo. Por isso, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de
So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de melhores condies de
trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidenta da Associao
Nacional Britnica para a Sade.
Fim
